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A Copa e os contrastes


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Gente fantasiada das formas as mais diversas, multicolorida, multirracial, de diversas crenças, de diversos níveis, vivendo as mesmas alegrias e as mesmas tristezas, rindo, chorando, gritando, cantando, reclamando, pulando, tensa, ansiosa, solta, expansiva, enfim, gente de toda espécie num mesmo clima como apraz a Deus, sem maldade, sem ódio, sem rancor. Esse é o clima da Copa 2006, não só na Alemanha mas por todos os países participantes. Que diferença quando comparado com os atentados diários no Iraque e entre judeus e palestinos, que matam inocentes, homens, mulheres e crianças, de forma estúpida e por razões que só aqueles fanáticos entendem. Que diferença entre o choro e as lágrimas derramadas nos dois lugares. Num o choro e as lágrimas podem ser de alegria pela vitória ou de tristeza pela derrota, mas são momentâneos e quando são de tristeza logo passam pela esperança de revanche, mesmo que seja daqui a quatro anos, mas que sempre será possível. Noutro o choro e as lágrimas são pela separação definitiva dos entes queridos, dos pais, dos filhos, dos irmãos. Choro e lágrimas que só se extinguirão com o tempo e sem qualquer esperança.

E o lugar da Copa, que já foi cenário, além de guerras de séculos passados, dos bárbaros e dos reinos em formação, e no último século, das duas grandes guerras mundiais, que ceifaram a vida de milhões de pessoas e destruíram grande parte do patrimônio europeu; que foi palco do mais horrendo dos espetáculos, o holocausto dos judeus; lugar que testemunhou as atrocidades cometidas pelos soldados de Hitler; lugar onde o povo foi arbitrariamente dividido por um muro, que separou as famílias de forma cruel, hoje, esse lugar vibra com as torcidas que se provocam e se confraternizam com espírito esportivo, apenas vigiadas para que os excessos não causem danos. Que diferença com o passado e com os lugares onde os ‘homens-bombas’ se explodem e mancham de sangue lugares considerados sagrados.

Que milagre a Copa realiza! Fora dela o mundo continua com os presídios que aumentam em razão geométrica e não conseguem acompanhar o crescimento dos crimes; com o tráfico de drogas superando em faturamento o comércio de produtos de utilidade; com o lenocínio e a pedofilia fazendo a desgraça de muitas famílias; com os políticos corruptos voltando à cena impunes e fazendo as mesmas promessas sem nenhum pudor.

Que milagre a Copa realiza! Dentro dela o mundo esquece o mal e só conhece a guerra incruenta da competição, do esforço para vencer pelo talento, pela disciplina, pelo respeito ao adversário. Dentro dela não há discriminação, a não ser pela nacionalidade, que é o critério de organização das seleções. Não há preconceito na escolha dos jogadores para formar a seleção e nem na classificação das seleções que vão disputar. Tudo é feito pelo desempenho, pelo mérito. E não é uma afirmação ingênua, que ignora a influência de “cartolas” e possíveis conchavos, porque estas coisas condenáveis e indignas são pequenas diante da grandiosidade da Copa. É só ver a diversidade dentro das seleções e no conjunto delas; é só ver a infinidade de bandeiras exibidas em todos os lugares, as roupas com as cores da seleção, as ruas e praças lotadas, com multidões contraídas nas horas de sufoco e explodidas nos momentos dos gols. A mesquinhez de aproveitadores e politiqueiros se dilui na grandiosidade do espetáculo.

Com todo respeito aos adversários, que a nossa seleção seja a melhor e volte com o troféu de hexacampã.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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