Economia & Negócios

‘Roberto Rodrigues já deveria ter saído’, avalia Lima Verde

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

O pedido de demissão do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, feito na noite de terça-feira e tornado público ontem, foi recebido com pesar e alívio pelo presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde. Amigo pessoal do ministro há muitos anos, ele avalia que Rodrigues deveria ter deixado o cargo já no final do ano passado.

“Eu acho que ele já devia ter pedido demissão quando teve a crise da (febre) aftosa (em outubro do ano passado). Na ocasião, o ministro foi muito criticado por um erro que não foi dele, e sim do governo. Ele havia pedido verba de quase R$ 200 milhões (para o ministério), sendo que só R$ 35 milhões foram liberados. Eu lamento porque não há ninguém mais habilitado do que ele para ocupar esse cargo, mas também fico aliviado porque sei que ele estava sofrendo muito”, diz Lima Verde.

Segundo ele, todas as vezes que Rodrigues solicitava recursos para o ministério, a resposta do governo demorava demais. “Acho que ele atingiu o ponto máximo da exaustão”, avalia.

A saída oficial do ministro deve ser discutida amanhã. Apesar de alguns comentários veiculados ontem na mídia de que o pedido de demissão seria por motivo de doença de sua esposa, Rodrigues negou e disse que pediu para sair por considerar sua missão cumprida no Ministério da Agricultura. Anteriormente ele já havia dito que não continuaria no cargo numa eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Crise

Durante a gestão de Roberto Rodrigues, a agricultura deu saltos de produtividade e atingiu recordes de exportação. Nos últimos dois anos, com a forte valorização do real frente ao dólar e a elevação dos custos de produção e do transporte, o setor entrou em crise. Em outubro de 2005 o ministro enfrentou um novo golpe: foram encontrados focos de febre aftosa em bovinos de uma fazenda em Eldorado, no Mato Grosso do Sul.

Na ocasião, embora tivesse autorizado a Defesa Agropecuária a gastar R$ 91 milhões, a equipe econômica do governo havia liberado somente R$ 30 milhões para aplicar em medidas de saneamento. Segundo o Ministério da Agricultura divulgou na época, o orçamento incial previa despesas de R$ 167 milhões. Devido à demora na liberação dos recursos, o Estado do Mato Grosso do Sul não recebeu nada dos R$ 3,5 milhões que o ministério programava repassar em 2005 para a questão sanitária.

“Os recursos sempre demoraram para chegar, mas ele (o ministro) foi contornando a situação. Mas chega um momento que fica impossível passar por cima. A verdade é que sempre houve problemas entre os ministérios da Agricultura e da Fazenda. A opinião pública, os políticos e muitos jornalistas não entendem que a agricultura é um setor diferenciado. Não pode ser comparada com comércio e indústria porque nós temos o problema do clima. Se a safra tem que ser plantada em agosto, o dinheiro tem que estar disponível. Não adianta chegar em dezembro”, enfatiza Lima Verde.

De acordo com ele, mesmo tendo um relacionamento melhor com o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, do que com o anterior, Antônio Palocci, Roberto Rodrigues continuava impotente em sua luta. “Até mesmo o dinheiro daquele pacote de R$ 75 milhões que o governo liberou para a agricultura ainda não chegou. Ele vem aos pouquinhos, o que não resolve nada.”

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Momento difícil

O presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, diz que o substituto do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, assumirá o cargo num momento muito difícil. Até ontem, o governo não havia definido quem será o novo titular da pasta. O período é de plantio da safra de produtos agrícolas.

“O grande problema da agricultura é a comercialização, e nós estamos justamente na época de venda da atual safra. Em agosto e setembro os agricultores vão começar a plantar a próxima safra, que será colhida entre maio e junho do ano que vem. Então, quem entrar agora vai pegar um pepino muito grande porque vai ter que planejar toda a nova safra com uma pressão terrível. Os preços estão muito baixos, a área plantada diminuiu 35% no País e o setor está sem recursos”, aponta.

Na opinião dele, independentemente de quem assumir o Ministério da Agricultura - seja um técnico ou um político -, não deve haver mudanças na política agrícola.

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