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Valor preditivo dos vestibulares


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Em relação ao noticiado suspense feito pela USP, sobre seu próximo vestibular, bem como à crítica docente acerca das mudanças que este trará, entendemos ser importante esclarecer duas afirmações proferidas pela Pró-reitora de Graduação, a saber: “A forma como o vestibular era feito até agora não dá certo” (...) “vamos passar a cobrar raciocínio e uma postura crítica com relação ao conhecimento e não acúmulo de informações”.

Entendo que ambas as colocações da Pró-reitora podem ser sumariadas por meio de duas questões que permeiam quaisquer processos de avaliação e/ou constructos de natureza psicológica. A primeira questão indaga quantas dimensões cognitivas podem ser capturadas pelos EV. Já a segunda questão questiona o quanto as mudanças propostas serão capazes de predizer o sucesso acadêmico e mesmo profissional numa dada sociedade

Assim estabelecido, entendemos que estas questões trazem uma forte analogia com o modelo da estrutura do intelecto humano, descrito pela teoria da inteligência fluída e inteligência cristalizada. A habilidade fluída é demonstrada pela solução de problemas para os quais experiência prévia e conhecimento aprendido são, ambos, de pouco uso. Por sua vez, a habilidade cristalizada reflete conhecimento consolidado ganho por meio da educação, acesso a informação cultural, bem como, através da experiência. É um processamento cognitivo que envolve conhecimento previamente adquirido e armazenado a longo prazo.

Assim correlacionado, entendo que a Pró-reitora, ao comentar rapidamente a necessidade de se cobrar raciocínio, certamente quis dizer que se torna necessário que os EV atuais, por melhor que eles sejam, passem a valorizar (talvez, mais do que o fazem) a habilidade fluída e não apenas a habilidade cristalizada como muitos, aparentemente, julgam que eles façam.

Altos índices cognitivos são preditivos de mais realizações educacionais e mais educação torna-se preditivo de altos resultados intelectuais. O problema é: quais dimensões e/ou fatores dos EV (questões de física, de química, de matemática, de português, de redação, ou um total composto, etc.) são mais preditivos, ou se correlacionam, mais altamente, com o desempenho acadêmico, ou que permitam melhor predizer o sucesso na carreira profissional. Também, questiona se qual o valor preditivo do EV para o sucesso na carreira e a sua relação (correlação) com o bem-estar-subjetivo.

Portanto, o problema é estatístico e resume-se em saber qual, dentre vários fatores, explica mais da variância encontrada. Nada mais. Para isso, deveríamos programar uma análise exaustiva do valor preditivo dos nossos exames vestibulares, procurando analisar suas correlações com vários critérios externos, sejam estes os desempenhos nas notas de diferentes disciplinas curriculares, bem como, com os indicadores de sucesso, valorizados em nossa sociedade e cultura.

Assim, entendo que tem razão a Pró-reitora de graduação ao afirmar que devemos buscar novos modelos de EV, visando encontrar melhores preditores para o sucesso pessoal, profissional e acadêmico. Estudos desta natureza devem ser realizados com freqüência nos moldes daqueles desenvolvidos pelo Educational Testing Service (ETS) da Universidade de Princeton (USA).

O autor, José Aparecido da Silva, é prefeito do câmpus da USP de Ribeirão Preto

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