O finais de semana estão se tornando um verdadeiro pesadelo para o diretor do Departamento de Urgência e Emergência, José Roberto Berber. Sem pediatras para compor a escala de plantão do Pronto-Socorro Infantil, ele conta que o atendimento depende da iniciativa de alguns médicos. “Eu não sei o que fazer nesse final de semana. Você vende o almoço para comprar o jantar. É uma expressão chula, mas é verdade. Você corre atrás de um prejuízo para tapar o buraco. E o que precisamos é de solução definitiva, contratando profissionais”, aponta o diretor.
Para amanhã e domingo, Berber está na expectativa de que alguns médicos apareçam em auxílio ao departamento. “Estamos esperando que alguns colegas de Bauru se prontifiquem a sacrificar mais um final de semana, para dar tempo à administração tomar alguma decisão definitiva”, pede. Esse problema já ocorreu semana passada. Na madrugada do dia 23, Berber e outras duas profissionais se revezaram para atender a demanda na unidade. Das 19h às 23h, os três atenderam 160 crianças.
“Não dá para cuidar da saúde sem o médico. E para contratar, você deve oferecer um salário atraente. O que temos aqui não tem atraído. A secretaria abriu a contratação emergencial e não apareceu nenhum inscrito”, aponta Berber. O secretário de Saúde, Mário Ramos, conta que a contratação foi divulgada em cinco grandes universidades de medicina. “Amanhã (hoje) nós veremos como estão as inscrições”, conta.
Ontem, o Ministério Público (MP) sediou mais uma reunião que já acontece desde o início do ano, com representantes da Secretaria Municipal de Saúde, Direção Regional de Saúde-10 (DIR-10), Hospital Estadual, Associação Hospitalar de Bauru (AHB), Sindicato dos Médicos do Estado de São Paulo (Simesp), Conselho Regional de Medicina (CRM) e usuários da rede.
Ao final do encontro, o promotor Fernando Masseli Helene listou as manifestações da reunião: a DIR-10 pretende oferecer mais consultas à central de agendamentos em especialidades médicas. A secretaria de Saúde afirmou que vai continuar buscando a contratação de 41 clínicos gerais e 15 pediatras e também a melhoria dos salários da categoria. O CRM irá encaminhar sugestões por escrito à Secretaria de Saúde. A AHB se prontificou a fornecer mais leitos para internações de pacientes vindos do Pronto-Socorro Central. Uma reunião foi agendada para o dia 20 de julho, para a assinatura de um termo de pactuação entre os segmentos.
Ramos apontou que uma das principais dificuldades da secretaria é a falta de consultas para especialidades. Hoje, a demanda mensal é de no mínimo oito mil atendimentos. Outra necessidade é dar maior fluxo aos pacientes de prontos-socorros. “Tem que dar vazão aos pacientes do PS. Eles não podem fica dias ali à espera de uma internação e quem regula isso é a DIR-10”, observa Ramos.
A reunião concentrou cerca de 20 pessoas no gabinete do promotor Fernando Masseli Helene. Todos os pontos levantados pelos participantes levavam ao consenso de que se os salários dos profissionais da Saúde não melhorarem, nenhum médico vai se candidatar às vagas. Os especialistas que já estão no sistema, vão continuar saindo – desde o início do mês, seis médicos já pediram demissão. Assim, a qualidade do atendimento continuará sendo alvo de críticas por parte da população.
Positivo
Para o promotor Fernando Masseli Helene, o sistema de saúde pública tem melhorado e o problema de acúmulo de atendimento foi agravado pelo clima. “Tem-se criado um sistema novo de gerenciamento em Bauru. Hoje existem forças atuantes na questão e situações favoráveis que contribuem para essa melhoria. É óbvio que a população não sente uma melhora a cada reunião, porque a demanda é de mais de 10 anos”, avalia. O próximo encontro das entidades foi agendado para o dia 10 de agosto às 14h.
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Contexto
Há anos a rede municipal de saúde de Bauru enfrenta problemas estruturais e de falta de pessoal, que culminaram no fechamento dos prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga, no ano passado. Porém, nos últimos meses, a crise se agravou. Sem conseguir consulta e exames em prazos adequados nas unidades básicas de saúde, os núcleos localizados nos bairros, a população tem lotado o Pronto-Socorro Central e o Pronto-Atendimento Infantil (PAI) Central.
Na semana passada, também impulsionado pelas doenças respiratórias conseqüência do clima seco, o número de consultas no PAI saltou de uma média de 230 por dia para 430. A crise atingiu o relacionamento entre os médicos e o secretario de Saúde, agravado por boatos de pedido de demissões em massa e especulações sobre fechamento de unidades.
Na segunda-feira, os vereadores Majô Jandreice (PC do B), Primo Mangialardo (PV) e Benedito da Silva, o Benê, (PSDB), percorreram unidades de saúde pela manhã e propuseram mais agilidade e a criação de uma força-tarefa, formada por vários segmentos da administração municipal, para sanar os problemas do setor.
No sábado passado, foi publicado no Diário Oficial de Bauru o projeto de lei - que será enviado ao Legislativo - com a proposta que cria nova grade salarial para os médicos com jornada opcional de 10 horas semanais. A diferença é que os médicos que optarem por atender a pacientes por 10 horas por semana ganhariam 50% dos vencimentos. O projeto também autorizou o contrato emergencial de médicos par um período máximo de 180 dias.
Atualmente, a remuneração inicial de um médico que trabalha no pronto-socorro é de R$ 2.338,00, valor que inclui salário base inicial e adicional de 125%, para carga horária de 20 horas semanais. A remuneração inicial de um médico que trabalha nas unidades básicas de saúde é de R$ 1.403,12, valor que inclui salário base inicial e adicional de 35%, para carga horária de 20 horas semanais.