A autoridade monetária parece bastante satisfeita por ter conseguido impor um ritmo mais lento na redução da taxa básica de juros. A pretexto de resguardar a economia interna de riscos externos que só ela enxerga, vai conseguindo manter a enorme diferença das taxas de juros interna e externa que permite uma arbitragem altamente lucrativa para os investidores estrangeiros. Altos juros e um Real sobrevalorizado sustentam a alegria do ganho fácil no setor financeiro. Do outro lado da moeda, aumentam as dificuldades do empresariado do setor produtivo nacional que procurou ampliar sua participação no comércio exterior e que se vê alijado dos mercados porque a supervalorização cambial lhe tirou condições de competir.
No Brasil, o debate sobre os problemas do fabricante de máquinas ou parafusos só costuma ganhar algum espaço importante na mídia (e atrair alguma atenção dos governos) quando o estrago já se produziu, os empregos foram exterminados e os lucros dos empreendedores sumiram pelo ralo. Quem ainda se lembra do período negro da “âncora cambial”, quando a sobrevalorização do Real arrasou a agropecuária brasileira, desestruturou o setor exportador e endividou o país nos anos 1994/1998, enquanto se comemoravam os brilhantes feitos do plano Real no combate à inflação? Na seqüência desses festejos foi reeleito um presidente, mas o país só foi salvo do “default” porque chegou um enorme empréstimo do FMI. O atraso, curiosamente, ajudou a formar a opinião que se refletiu nas urnas e elegeu Lula, em 2002. A situação agora é bem diversa, a economia entrou numa fase de recuperação importante, eliminou-se uma boa parte do constrangimento externo e é simples verificar a superioridade de praticamente todos os indicadores sociais e econômicos do governo Lula em comparação com os dois mandatos de FHC. Mas ainda assim, repete-se a postura alienante diante do estrago que o câmbio faz na agricultura ou quando se trata do enfraquecimento do comércio exterior. Ninguém quer reconhecer que diminuiu a taxa de crescimento físico das exportações, ninguém quer discutir o fato que indústrias altamente competitivas pararam de investir para exportar, estão deixando o país e transferindo a produção para o Exterior.
Alguns de nossos melhores empresários, os mais ativos e inovadores, estão levando suas plantas (e os respectivos empregos) para a América Central, para a Ásia ou Estados Unidos para escapar das condições impostas à economia brasileira pela sobrevalorização do Real. Nem no governo se encontra interlocutor nem na mídia, especialmente a eletrônica se acha espaço para tratar dos reais problemas: o mais grave é que já vimos este filme antes e até o título é o mesmo: “Que se dane o produtor de parafusos!”...
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PMDB-SP, professor emérito da USP