Política

Indústria brasileira vai à luta sem estratégia de longo prazo


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A indústria brasileira cresce acima da média do Produto Interno Bruto, mas apresenta nos últimos dez anos um desempenho irregular que dificulta a busca da sustentabilidade e escancara a falta de uma estratégia nacional de desenvolvimento. Desde o governo Getúlio Vargas, que criou o primeiro ordenamento industrial do País, em 1951, o setor reclama um olhar mais abrangente. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias no Estado de São Paulo, saiu a campo com um calhamaço de estudos produzidos pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da entidade, e afirma que passou da hora de termos uma política industrial que ofereça ao Brasil melhores chances no mercado global.

“Todos os países bem-sucedidos têm uma consistente política industrial”, lembra Skaf, lamentando que, no caso brasileiro, a questão é ainda incipiente. Na sua opinião, “a política industrial de que o Brasil precisa deve contemplar, entre outras medidas, a melhoria da moldura institucional, incluindo a regulação e incentivo à concorrência e a modernização do marco legal”. Essas mudanças, que dependem de políticas públicas, teriam como umm dos objetivos definir os papéis do Estado e reduzir a burocracia.

Para Skaf, uma política industrial brasileira deveria oferecer mecanismos voltados à capacitação produtiva, gerencial e comercial das empresas, à formação de redes de cooperação tecnológica e arranjos produtivos locais, além de ações concretas para aumentar a eficiência das relações verticais entre fornecedores, produtores e clientes.

“É necessário, também, multiplicar os esforços em inovação, pesquisa e desenvolvimento, bem como criar uma efetiva política de crédito, capaz de tornar o capital para investimento mais disponível e com juros menores”, acrescenta, lembrando que é preciso incluir as micro, pequenas e médias empresas. “Outra ação premente é estabelecer maior incentivo, com regulamentação e regras claras, de atração do capital estrangeiro, tornando o Brasil uma base produtiva relevante na estratégia global das companhias de padrão mundial”, completa.

Os estudos da Fiesp indicam que a oferta de crédito, embora tenha crescido substancialmente nos últimos cinco anos, ainda exigem grande dose de coragem e confiança das indústrias, pela persistência das taxas de juros elevadas. Desde que assumiu a presidência da instituição, Paulo Skaf saiu a campo com a determinação de estabelecer um diálogo direto com as autoridades federais. Sem esconder sua relação de amizade e convergência política com o ex-governador Geraldo Alkminn, principal candidato oposicionista ao Planalto, tem conseguido apresentar os argumentos sustentados por suas assessorias especializadas.

O trabalho, segundo Skaf, oferece uma equação para o problema da excessiva carga tributária que há uma década sacrifica o setor produtivo. “Em março de 2005, entreguei à equipe econômica do governo, aprofundada análise sobre a necessidade premente de controle rigoroso dos gastos públicos, como ponto de partida para um processo de queda dos juros e da carga tributária e multiplicação dos investimentos”, afirma. A diminuição anual de apenas 2% nas despesas da União resultaria, em uma década, na redução da dívida pública de 51,8% para 25,7% do PIB, garante. Em igual período, a carga tributária federal recuaria de 24% para menos de 18% do PIB e a carga total cairia de 35% para menos de 28%, acrescenta.

“Em conseqüência da diminuição da dívida pública, o volume de empréstimos bancários ao setor privado aumentaria de 25% para 61% do PIB, também em 10 anos”, reforça o presidente da Fiesp. “Isto propiciaria uma elevação dos investimentos privados de 16,8% para 19,2% do PIB. A folga fiscal também permitiria crescimento dos investimentos públicos, inclusive nos segmentos prioritários da educação, saúde e inffra-estrutura, de 0,3% para 5% do PIB. Estes avanços somados levariam a economia brasileira a crescer, em média, 6% ao ano, ou seja, em índices compatíveis com a conjuntura internacional e os anseios de desenvolvimento de nossa nação”, completa.

O estudo da Fiesp, segundo seu presidente, reforça opinião unânime de que o excesso de impostos é uma das causas de o Brasil estar perdendo terreno no cenário global. “A expansão do nosso Produto Interno Bruto nos últimos exercícios tem ficado sensivelmente aquém da média mundial, latino-americana e dos emergentes. Este baixo desempenho significa a perda de oportunidade de crescimento substantivo numa conjuntura internacional muito favorável. Assim, não é mais possível retardar a substituição dos impostos altos pela alternativa do maior controle fiscal”, pondera.

Na opinião de Skaf, o investimento industrial é mais eficiente quando leva em conta vocações locais e regionais e fatores como logística, proximidade dos mercados consumidores e corredores de exportação e acesso à matéria-prima. “Basta uma rápida análise para verificar que tais aspectos já suscitaram sensível descentralização do parque industrial no País”, observa, acrescentando não acreditar que isso prejudicado São Paulo.

“Nosso Estado tem cerca de 75 mil indústrias, sendo que 32% localizam-se na Capital e 68%, no Interior. Considerando que este parque empresarial representa 44% do PIB industrial brasileiro e 16% do PIB nacional, empregando 2,2 milhões de trabalhadores com registro formal em carteira, fica muito claro o seu significado macroeconômico”, acrescenta.

Uma política industrial defendida pela Fiesp deveria dar ao Brasil condições de aplicar ao máximo suas vocações, para competir com a indústria de software da India, a indústria de eletrônicos da Coréia e China, ou deverímos buscar alternativas na nossa biodiversidade, como a indústria de energia à base de biodiesel e etanol? Para Paulo Skaf, o Brasil tem múltipla escolha: “ “É um país com dimensões continentais, tem povo inteligente e talentoso, seu parque empresarial é moderno e produz com boa qualidade; portanto estamos em condições de competir em todas as áreas. Nosso problema, como todos sabemos, é o chamado "custo Brasil", que nos tira competitividade. Por outro lado, é claro que devemos privilegiar nossas vocações e potencialidades como, por exemplo, a indústria da energia”, afirma.

Quanto à logística, area em que o Brasil avançou nos últimos anos, com a modernização das hidrovias, a privatização e renovação de ferrovias, a composição de sistemas multimodais, o presidente da Fiesp defende novos ajustes. “Temos que rever nossa matriz de transportes, baseada principalmente no modal rodoviário (60%). A infra-estrutura do sistema de transporte de carga brasileiro, tal como se encontra hoje, acarreta significativa perda econômica e de competitividade e, portanto, gera elevação do custo Brasil".

O presidente da Fiesp entende que o País precisa de um planejamento estratégico de longo prazo, que contemple as necessidades atuais e futures da indústria, a disponibilidade de recursos e as características de cada região. Na sua opinião, é possível estabelecer um diálogo construtivo entre os setores público e privado, com a criação de uma agenda objetiva entre as partes e uma sinergia entre setor privado, entidades parceiras, sociedade civil e setor público. O objetivo, destaca, seria “estruturar um planejamento, de Estado, e não de governo”.

“Em linhas gerais, precisamos estabelecer marcos regulatórios em todos os modais de transporte, que irão definir as regras de cada um deles. Em seguida, investir pesado na melhoria e ampliação da infra-estrutura, para que possamos ter uma rede de transporte mais adequada às nossas necessidades e que permita uma logística mais eficiente. E ainda promover maior integração entre os diversos modais” – é a receita básica da Fiesp para uma estratégia de logística para o Brasil. Com isso, entende Skaf, o País estaria pronto para fabricar e entregar produtos com qualidade e preços competitivos, eliminando os gargalos que atrapalham o desenvolvimento de sua indústria.

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QUEM É PAULO SKAF

Empresário do setor têxtil, há dois anos preside a Fiesp, sistema que congrega Sesi (Serviço Social da Indústria) e Senai (Serviço Nacional da Indústria). Membro do Conselho Estadual de Relações Exteriores e Comércio Exterior do governo de São Paulo e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico da Presidência da República. Presidiu a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção) e o Sinditêxtil (Sindicato da Indústria Têxtil do Estado de São Paulo).

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Duas perguntas sobre corrupção

APJ - O Instituto Ethos criou o Pacto Empresarial Contra a Corrupção, na semana passada, e obteve a adesão de 200 empresas. Como levar a indústria em peso para um movimento de combate à corrupção?

Paulo Skaf — A indústria, conforme evidencia com cristalina clareza o firme posicionamento dos empresários e entidades de classe do setor, dentre elas a Fiesp, é uma das protagonistas da mobilização e repulsa da sociedade brasileira à improbidade e à falta de ética. Há mais de um ano, em companhia da OAB-SP e de outras importantes instituições da sociedade civil, realizamos um movimento em defesa dos direitos dos cidadãos e contra a corrupção.

APJ - Se existe corrupção, é porque há corruptores, ou alguém está sendo chantageado. O que a Fiesp pode fazer, efetivamente, para desestimular as práticas da propina e das licitações viciadas, que afetam principalmente a equidade da concorrência?

Paulo Skaf A Fiesp não tem poder de polícia, e corrupção é crime. Portanto, nossa ação é limitada. Quando fazemos campanhas estamos informando, alertando, conclamando a sociedade para o permanente combate à corrupção. Realizamos ainda, além do engajamento em campanhas, eventos voltados ao combate à corrupção, temos lutado e obtido resultados no processo de desburocratização pública, redução da informalidade, desoneração de impostos — tudo isso reduz os ambientes para a corrupção.

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