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Do CA para os bailes de formatura

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 9 min

Ele disse não a uma carreira cujo sucesso parecia certo. Empregado e com promoção garantida, abandonou a engenharia mecânica para tornar-se promotor de eventos. Tão rápido quanto um gato, Maurício Pugliesi soube conciliar o raciocínio exigido em sala de aula com os prazeres e gargalos das festas universitárias. Em dez anos, transformou a marca Ticomia numa referência em pelo menos 15 cidades paulistas.

Atualmente especializada em formaturas, a empresa foi concebida no Centro Acadêmico (CA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi lá que Maurício assumiu a atribuição de promover uma festa. Entre uma cerveja e outra, a batizou de Ticomia e tomou gosto pela coisa. A empresa, oficialmente, nasceu alguns anos depois, pelas mãos dele, do irmão e de um sócio.

O trio “fugiu” da engenharia, mas não do Ticomia. Rendidos, fizeram dinheiro e fama. Com apenas 31 anos, Maurício já tem know how para recomendar o segredo do sucesso: mistura de fé, amor, competência e dedicação. A seguir, leia os principais trechos das entrevista.

Jornal da Cidade - Quando você veio para Bauru?

Maurício Pugliesi - Em 1992, para fazer faculdade de engenharia mecânica na Unesp. Concluí a faculdade em 1996.

JC - O Ticomia surgiu numa república de estudantes?

Maurício - Surgiu da minha turma de faculdade. Da turma de engenharia mecânica. Foi uma festa que a gente fez, no começo por brincadeira. A primeira fizemos para o Centro Acadêmico (CA). Eu participava do CA. Fizemos para arrecadar fundos.

JC - Naquela época, as festas eram em república ou boate?

Maurício - Era em boate, era em república, onde dava. A festa ficou conhecida. No último ano de faculdade, nós queríamos fazer uma formatura com uísque à vontade. Na época, a nossa festa foi uma das mais completas. Pagávamos o mínimo do mínimo de mensalidade, por causa dessas festas que a gente fazia. Sempre quem organizava a parte burocrática era eu.

JC - E dava para conciliar com a faculdade?

Maurício - Eu consegui me formar sem pegar nenhuma DP (dependência), nem RE (regime especial). Em engenharia é até meio difícil de acontecer. Eu não estudava muito, mas prestava muita atenção nas aulas.

JC - Sua expectativa era ser engenheiro mecânico?

Maurício - Era. Trabalhar numa Volks, numa GM, numa multinacional.

JC - Mas ao final da faculdade o Ticomia já era um nome conhecido.

Maurício - Não uma marca, mas já era um nome, já tinha uma credibilidade.

JC - Você adotou o nome para colocá-lo numa festa?

Maurício - Eu e um amigo, sentados num boteco, tomando cerveja. Começamos a fazer um brain storm e aí surgiu o Ticomia por causa daquela música: “Tico Tico é o gato. Tico mia na sala, Tico mia no sofá”. E no último ano, eu me propus a organizar os últimos dois eventos que nós fizemos, sendo que todo mundo estava fazendo estágio fora, em outras cidades.

JC - Foi seu primeiro emprego?

Maurício - Quando eu me formei, fui trabalhar numa empresa de transporte de valores, como trainnee de gerência. Mas acabei organizando os dois últimos eventos para a comissão de formatura. Reverti o lucro para eles e, teoricamente, ganhei o nome Ticomia. A gente fez uma troca com a classe. Mas eu não sabia se ia usá-lo. Eu queria apenas fazer uma festa mais para frente, depois de formado.

JC - Mas o que mudou?

Maurício - Meu irmão também entrou na faculdade de engenharia civil, na Unesp. Ele é um dos meus sócios hoje. Foi quando a gente conheceu meu terceiro sócio, que era amigo do meu irmão de Ribeirão Preto. A partir de 95, 94, eu organizava toda a parte burocrática e eles promoviam e divulgavam o evento.

JC - E ainda conseguia curtir as festas?

Maurício - Conseguia. No começo, bastante. A gente tinha comprometimento e envolvimento com o público, mas era uma coisa sem profissionalismo, apesar de ter muita gente.

JC - Então você trabalhava na empresa de transportes de valores e promovia eventos?

Maurício - Eu trabalhei um ano, paralelamente. No começo de 1998 a gente virou uma empresa mesmo, com nome registrado e tudo mais. Eu tirei férias da empresa (de transporte de valores) e fui viajar. Nós três sentamos e conversamos. Tínhamos tido muitos problemas na formatura.

JC - E discutiram isso na viagem?

Maurício - Na época, meu irmão era presidente de comissão de formatura e meu outro sócio também era. Aí a gente enxergou esse nicho de mercado. O foco da nossa empresa hoje, diferente do que todo mundo pensa, é formatura. A gente faz muitos eventos, mas o foco é esse. A gente queria dar um atendimento ao formando. Damos opção de banda, decoração, buffet.

JC - Na volta, deixou a empresa de transportes?

Maurício - Essa foi a decisão mais difícil da minha vida. Eu era trainnee e seria promovido.

JC - E seus pais?

Maurício - Eu estava super bem na empresa, estabilizado. Meu pai tinha falecido recentemente, fazia mais ou menos seis meses. Eu cheguei para a minha mãe e falei que queria abrir a minha empresa, porque tinha aptidão para isso.

JC - Então a Unesp mostrou um caminho, mas longe das salas de aula.

Maurício - Mostrou. Tem gente que pergunta se eu perdi tempo. Eu respondo que eu só tenho a agradecer.

JC - O que não pode faltar numa boa festa?

Maurício - O princípio é cumprir com o que você prometeu. Isso é premissa básica do Ticomia. Se falar que vai colocar uma banda, faça chuva ou sol, tem que colocar a banda. É por isso que o Ticomia conseguiu credibilidade.

JC - Vocês partiram de festas para focar em formaturas?

Maurício - Quando a gente abriu a empresa voltada para formatura, a gente só fazia festas, não tinha nenhuma formatura para apresentar no portifólio. Sem ter feito nenhuma formatura anterior, conseguimos fechar 34 contratos. Como isso? Por causa da credibilidade. Porque tudo o que a gente vendia nos nossos eventos, a gente cumpria e muito mais.

JC - Qual é o risco de naufragar uma festa?

Maurício - Uma das coisa que a gente sempre discute é o lugar. Pode ser muito determinante, principalmente quando não se tem um nome.

JC - Antes as festas aconteciam mais em repúblicas. Atualmente são em casas noturnas. Vocês acompanharam a mudança ou ajudaram a promovê-la?

Maurício - É tudo junto. Tudo muda. Por exemplo, o que se escutava antigamente, há cinco anos, é impensável para hoje. Antes, o cara pegava uma viola ou tocava rock. Agora, os universitários partem mais para som eletrônico.

JC - E quando a organização não é sua? Dá para relaxar?

Maurício - Como sou do ramo, fico de olho em tudo. Entro num lugar e penso: imagina fazer uma festa aqui? É natural. Brinco até com a minha esposa. Como ela é dentista, ela olha para as pessoas e repara sempre no sorriso.

JC - Você gosta da vida caseira?

Maurício - Eu gosto. Mas também gosto de viajar, sair com meus amigos, visitar minha mãe, minha sogra, meu sogro. Prezo muito a família. Mas a festa também é um prazer, até porque abri mão da engenharia.

JC - Você pensa em retomar a engenharia um dia?

Maurício - Tenho certeza que não vou retomar.

JC - Em tudo o que o Ticomia põe a mão vira ouro?

Maurício - Tudo o que é feito com carinho, seriedade, honestidade, índole, vira ouro. Isso é o principal.

JC - Você tem sexto sentido para os negócios?

Maurício - O Ticomia não sou eu. São os três sócios. Nós somos muito unidos, cada um focado na sua área de atuação. Eu tenho certeza que eu sozinho não teria conseguido estar onde a gente está hoje. Eles dizem a mesma coisa.

JC - Já lhe ocorreu que o sentido dúbio do nome Ticomia poderia ser prejudicial?

Maurício - Quando a gente foi montar a empresa, fomos escolher o nome. Fizemos uma votação porque não queríamos usar o Ticomia. Como é que você vai vender uma formatura em Marília com um nome desse? Aí fizemos uma seleção por nome e saiu Impacto Eventos, que é a razão social. O Ticomia é nome fantasia.

JC - Aqui em Bauru é Ticomia e na região, Impacto Eventos?

Maurício - Quando a gente montou Impacto Eventos foi pensando nisso. Mas o engraçado é que, quando a gente ia para outras cidades e se apresentava como Impacto Eventos, o pessoal dizia: ah, são eles, do Ticomia lá de Bauru. Então, por mais que a gente tenha tentado, não conseguiu.

JC - É um nome forte.

Maurício - Quando a gente fez um curso de eventos, o professor pediu para que todo mundo escrevesse o nome da empresa que trabalhava. Eu falei que era o Maurício do Ticomia. E virou aquela coisa: Ticomia? Ticomia? No final da aula, ele perguntou o nome das três empresas que mais marcaram. Unanimamente, numa classe de 46 alunos, em primeiro lugar foi o Ticomia. Nós estávamos remando contra a maré.

JC - Por ser promotor de eventos, você é muito assediado?

Maurício - Olha, eu tenho muitas amizades, sinceras. Eles são amigos não pelo o que a gente tem, mas pelo o que a gente é.

JC - E a concorrência?

Maurício - Vem aumentando. O que a gente faz hoje é um trabalho totalmente diferente. A gente inovou. Todo mundo enxerga o Ticomia como festa, mas a base são as formaturas. A gente viveu nesse mundo universitário e sabe quais são os gargalos, as dificuldades. A gente desenvolveu uma sistemática de trabalho, de venda, totalmente diferente. É uma sistemática onde você vende tranqüilidade, credibilidade.

JC - Qual festa ficou marcada?

Maurício - A de dez anos do Ticomia. Foi uma virada em termos de concepção de evento. Nós partimos de um evento mais popular para um evento mais diferenciado em termos de público.

JC - E qual é a nova tendência?

Maurício - É essa. A gente está fazendo eventos mais focados, diferenciados. Alguns eventos só para universitários e outros para um público de poder aquisitivo um pouco melhor.

JC - Qual é sua meta?

Maurício - Nossa meta é trabalhar duro, brigar para crescer até uns 50, 55 anos. Depois dessa idade, administrar o que a gente tem. A meta é assegurar uma vida familiar e social tranqüila. Hoje a gente ainda trabalha muito. Chego no escritório entre 8h e 9h. Chego a sair daqui às 20h30, 21h. Dá umas 12 horas de trabalho.

JC - O sucesso tem segredo?

Maurício - Tem que acreditar e fazer o que gosta. Saí da empresa que eu trabalhava, perdi meu pai. Meus sócios faziam faculdade. Parecia que tudo poderia dar errado. Apesar disso tudo, eu decidi, acreditei e deu certo.

Perfil

Nome Maurício Pugliesi Data de Nascimento 01/08/74 Idade 31 anos Naturalidade Orlândia Profissão Promotor de eventos Estado civil Casado Hobby Pescaria e viagens Time São Paulo Cor preferida Vermelho Para quem daria nota 10 Meu irmão Para quem daria nota 0 José Dirceu

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