Gaza - O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, culpou ontem a cisão interna do grupo Hamas, que tem maioria no Parlamento, pelo fracasso das negociações diplomáticas mediadas pelo Egito para a libertação do soldado israelense, à qual está condicionado o fim da ofensiva de Israel em Gaza.
Na madrugada de ontem, pelo quarto dia, aviões israelenses bombardearam o Norte e o Sul de Gaza, e houve novos ataques de artilharia com tanques. Não houve registros de feridos. “Os esforços dos egípcios enfrentam dificuldades devido à falta de um responsável do lado do Hamas capaz de tomar decisões”, declarou Abbas em comunicado emitido por seu gabinete, referindo-se ao dissenso entre o braço político do grupo, líderes exilados na Síria e os responsáveis pelo seqüestro.
“A liderança política lá fora diz que a decisão cabe a seu braço militar em Gaza, enquanto o braço militar afirma que a decisão é da liderança política lá fora. Ismail Hanyieh, o atual premiê no governo do Hamas, parece não ter poder decisório nesta questão”, segue o texto.
A captura do cabo Gilad Shalit há uma semana por radicais islâmicos desencadeou uma ofensiva militar de Israel que já dura cinco dias e intensifiou a crise política nos territórios. Os três grupos que mantêm Shalit, 19 anos, exigem que Israel liberte mil prisioneiros “palestinos, árabes e muçulmanos”.
O governo israelense voltou ontem a rejeitar o pedido e prometeu manter a ofensiva. “O premiê Ehud Olmert reitera que não haverá acordo. Ou Shalit é libertado ou agiremos para libertá-lo”, disse o porta-voz da chancelaria, Mark Regev. Falando pela primeira vez sobre o caso, Haniyeh anteontem condiciounou a libertação do soldado à soltura de prisioneiros por Israel e acusou os israelenses de tentarem derrubar seu governo por meio da ação militar e da prisão de 64 membros graduados do Hamas, inclusive ministros e parlamentares. Israel afirma que eles são suspeitos de envolvimento em atos terroristas.
Em declaração divulgada pela Casa Branca, o presidente dos EUA, George W. Bush, afirmou que a libertação de Shalit é a “chave” para o fim da crise e deveria ser a “meta inicial”. Atual detentor da presidência rotativa da União Européia, o premiê finlandês, Matti Vanhanen, também pediu a libertação de Shalit, mas afirmou que Israel deveria soltar os membros do Hamas.
Já o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a “resposta desproporcional de Israel” à captura do cabo pode arrastar a crise “a um ponto sem volta”. Por meio do vice-ministro para questões de prisioneiros, Ziad Abu Aen, o governo palestino anunciou que a condição de Shalit é estável e que ele recebeu tratamento médico. “Ele tem três ferimentos. Creio que sejam de estilhaços”, declarou Aen, citando “mediadores”.
O Conselho de Segurança da ONU promoveu um encontro de emergência ontem, depois que os palestinos pediram ao órgão que condenasse as ações israelenses e ordenassem o fim da ofensiva. Segundo a ONU, Gaza está à beira de uma crise humanitária. A ação israelense atingiu centrais elétricas e deixou mais de 1 milhão de pessoas sem luz. Militares egípcios informaram ainda que mais de 4 mil palestinos estão “presos” em Rafah e El Arish, perto da fronteira com o Egito, por conta da ofensiva de Israel. Muitos deles trabalham em países do golfo Pérsico e viajavam de volta para casa para as férias.