Cultura

Amar a si mesmo


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Olhando maravilhada para o telhado, a criança chamou atenção do pai: “Olha só as pombas! Aves inúteis!”, comentou rabugento o pai. “Nossa, como elas são lindas quando voam!”, disse a criança. “Elas vão acabar fazendo sujeira na nossa cabeça”, disse o pai. “As brancas, então, parecem que possuem uma luz própria!”, afirmou a criança. “Elas podem estar fazendo ninho no meu telhado. Deveriam acabar com essa peste!”, encerrou o pai a conversa.

Em nosso senso comum parece existir um paradoxo entre o “amor a si mesmo” e o “amor aos outros”. Criou-se a errada noção de que amar os outros é virtuoso e amar a si mesmo é um pecado. Acredita-se que, se amo a mim mesmo, sou incapaz de amar o outro. Em outras palavras, confunde-se o amor a si mesmo com egoísmo.

Calvino chegou a referir-se ao amor a si mesmo como uma peste. Para Freud, quem ama a si próprio não passa de um narcisista. Erich Fromm, porém, nos alerta para o contrário. Em sua visão, o amor maduro é um sentimento que nos leva à essência do ser humano e amar exige concretamente cuidado, conhecimento, respeito e responsabilidade.

Se é uma virtude amar o próximo, não porque ele possui determinadas particularidades, mas porque ele é um ser humano, deve ser também uma virtude, e não um vício, amar a si mesmo, já que também sou um ser humano. Não há concepção do homem em que eu mesmo não esteja incluído.

A própria Bíblia refere-se indiretamente à necessidade do amor a si mesmo. O mandamento maior é formado pela máxima “amar ao próximo como a si mesmo”. Isso significa que é fundamental saber amar a si para amar ao próximo. O amor e a compreensão por si mesmo não podem ser separados do amor e da compreensão por outro ser humano.

Aliás, o amor por meu próprio eu está inseparavelmente ligado ao amor por qualquer outro ser e por nosso universo. Quem não se ama é incapaz de amar alguém ou alguma coisa. É necessário compreender que o amor aos outros e o amor a nós mesmos não são alternativas que se excluem. Ao contrário, uma atitude de amor a si mesmo será encontrada em todos os que são capazes de amar os outros.

O sentimento de amor não é algo abstrato, ou simplesmente um impulso que surge independentemente de nossa vontade. Acima de tudo, o amor é uma atividade que pode e deve ser cultivada e desenvolvida. Como afirmei acima, amar se demonstra visivelmente pelo cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento.

Porém, o essencial no amor é sua atitude aberta. Quem ama sua família, mas não tem nenhum sentimento para com o “estranho”, possui uma incapacidade básica de amar. Em outras palavras, o amor ao ser humano é o pré-requisito para o amor por uma determinada pessoa. Assim, o meu “ser”, que é essencialmente humano, deve ser objeto do meu amor tanto quanto outra pessoa.

A pessoa egoísta, aquela que supostamente se ama, só se interessa por si mesma, quer tudo para si e não tem prazer de dar é, na verdade, insatisfeita consigo mesma, não se ama realmente. O egoísmo e o amor a si mesmo não são idênticos e sim, na verdade, opostos. A pessoa egoísta não se ama muito, ela se ama muito pouco; na realidade, ela se odeia.

A falta de carinho e cuidado por si mesma deixa a pessoa infeliz e ansiosamente necessitada de satisfações que estão fora de si. Por isso, os egoístas são geralmente gananciosos. Com certeza, as pessoas egoístas são incapazes de amar os outros, mas também não são capazes de amar a si mesmas. O mesmo podemos dizer das pessoas abnegadas, aquelas que não querem nada para si, aquelas que vivem só para os outros, orgulham-se de não se considerarem importantes. Na essência, as pessoas que se anulam pelos outros são infelizes, seus relacionamentos com os mais próximos são insatisfatórios, e daí surge a necessidade de olharem para fora e se dedicarem somente aos outros.

O ideal para o ser humano é viver a síntese da máxima cristã, ou seja, a fusão harmoniosa do amor a si mesmo e do amor ao outro, compreendendo que um necessita do outro. Como afirma o místico Mestre Eckhart, “se você ama a si mesmo, você ama todos os outros tanto quanto a si mesmo. Se você ama outra pessoa menos do que se ama, na verdade não conseguirá amar a si mesmo; mas, se você amar a todos, inclusive você, igualmente, então amará todos eles como se fossem uma só pessoa, e essa pessoa é ao mesmo tempo Deus e homem”. É assim uma grande e virtuosa pessoa que amando-se, ama igualmente a todos os outros. Para aperfeiçoar a atividade de amar e solidificar a atitude do amor em nossa vida é fundamental ler ou reler o livro “A Arte de Amar” de Erich Fromm (Martins Fontes).

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