Toda fonte de prazer, assim como o álcool, drogas e tabaco, pode causar dependência. Não poderia ser diferente com a Internet. Acompanhando a evolução da banda larga no Brasil, cresce o número de usuários conectados à rede e, conseqüentemente, mais sujeitos ao “vício virtual”.
Em geral, esse vício se caracteriza quando uma pessoa perde a noção do tempo ou passa mais horas do que gostaria em frente ao computador consultando sites, jogando, teclando ou enviando mensagens eletrônicas.
Embora seja relativamente novo, este comportamento é compartilhado por uma grande parcela de indivíduos e se caracteriza pela utilização da Internet de forma excessiva, explica o psiquiatra paulistano Aderbal Vieira Jr.
Com mais de 13 anos de experiência na área de psicologia, Vieira Jr. é coordenador do Programa de Orientação e Atendimento de Dependentes (Proad), órgão do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Capital paulista.
Com o objetivo de analisar e tratar o vício em Internet, o Proad iniciou há um ano projeto de psicoterapia em grupo. Atualmente dois pacientes são atendidos pelo programa. Em entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade, Vieira Jr. explica que ainda não é possível traçar um perfil do dependente “virtual”, mas garante que este comportamento pode prejudicar a vida profissional, social e relacionamentos familiar e afetivo.
“Existem casos de relações reais, concretas e interpessoais que vão sendo substituídas pelas relações virtuais. Se trata, por exemplo, daqueles indivíduos que preferem ficar conversando com um desconhecido na Internet do que jogar futebol com os amigos”, aponta.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade – A Internet pode viciar?
Aderbal Vieira Jr. – Pode. Na verdade qualquer substância ou comportamento que causa prazer ou alivia mal-estar pode ser vivenciada de forma descontrolada e viciar. Não existem, por exemplo, pessoas viciadas em antibióticos por que eles não têm graça nenhuma e podem causar efeitos colaterais. Trabalhamos com pessoas viciadas em dependências não químicas, como jogadores, compradores, praticantes de sexo compulsivo, pessoas que trabalham ou se exercitam demais e agora a Internet.
JC – O vício em Internet é novo?
Vieira Jr. - É novidade porque a Internet é uma coisa nova. As pessoas não poderiam se viciar em algo que não existia. À medida que a Internet surgiu, há cerca de 15 anos e se popularizou, há dez anos, começaram a surgir pessoas que a utilizam de forma descontrolada.
JC – Além do prazer, por que a Internet causa dependência?
Vieira Jr. – Algo no funcionamento do indivíduo faz com que a relação que ele estabelece com determinada substância ou comportamento seja patológica e tenha a característica de dependência, mas isto ainda está sendo pesquisado.
JC – Qual é o perfil do viciado neste comportamento?
Vieira Jr. – Estamos estudando este tema agora. Começamos a atender pessoas viciadas em Internet há um ano e não existe um número de pacientes suficiente ainda para montar um perfil estaticamente significativo.
JC – Mas existem algumas características que se destacam em pessoas que têm fixação pela Internet?
Vieira Jr. – Seria muito difícil apontar estes aspectos porque é um dado empírico, mas eu tinha uma fantasia (teoria) de que o número de viciados em Internet correspondia a uma faixa etária jovem, a qual está mais acostumada ou aclimatada com a Internet. Entretanto, como o tema está sendo divulgado pela imprensa, muitas pessoas costumam ligar e nos procurar. E a idade delas não é tão baixa. Então esta fantasia (teoria) minha, por enquanto, não está se confirmando.
JC – No Brasil, além do trabalho realizado pela Unifesp, existem outros estudos sobre o vício em Internet?
Vieira Jr. – Nas próximas semanas o Hospital das Clínicas de São Paulo deve começar um grupo semelhante e pode até ser que existam outras pessoas desenvolvendo estudos sobre o tema, mas por enquanto nós não sabemos. Nos Estados Unidos, o vício em Internet é trabalhado há alguns anos. A abordagem é um pouco diferente da desenvolvida no Brasil, na linha da terapia cognitiva comportamental.
JC – Como é o trabalho realizado pela Proad?
Vieira Jr. - Basicamente é uma psicoterapia em grupo que aborda três momentos. Quando o paciente chega ao ambulatório é recebido em um grupo de acolhimento. Depois passa para um grupo específico e tematizado. Na terceira etapa, para aqueles que querem aprofundar o tratamento e à medida que existem vagas, os pacientes são encaminhados para um grupo de terapia convencional e, para as pessoas que necessitam, existe acompanhamento médico. Em relação ao tratamento para viciados em Internet, quatro pacientes já passaram pelo ambulatório, dois estão conosco agora. Mas agora que o tema está sendo bastante difundido na mídia deve haver maior procura nas próximas semanas.
JC – Os usuários de computador percebem que podem estar viciados?
Vieira Jr. –A percepção da dependência ocorre a partir de suas conseqüências.
JC – E quais são elas?
Vieira Jr. – Quem utiliza muito a Internet - ressaltando que este comportamento não é exclusivo de todos porque há pessoas que usam muito a rede e nem por isso são viciadas – basicamente pode sofrer três conseqüências físicas. Além do esforço repetitivo por passar muito tempo digitando, pode ter problemas de coluna e nas costas, porque na maioria das vezes a pessoa não utiliza uma cadeira ergométrica. E, em casos mais graves, o excesso pode levar à obesidade. Em alguns casos, por exemplo, as pessoas deixam de fazer atividade física porque estão sentadas em frente ao computador e comendo salgadinhos o dia inteiro.
JC – Este comportamento já existia na época videogame, principalmente entre os adolescentes?
Vieira Jr. – Sim. Isto já era observado no comportamento de alguns adolescentes, que passavam horas jogando, numa época em que os jogos de computador não eram difundidos. E com o advento da Internet isto também acontece.
JC – E quanto aos fatores emocionais, o vício em Internet pode prejudicar relacionamentos pessoais?
Vieira Jr. – Para quem faz um bom uso da rede, a Internet pode até ser uma ferramenta de desenvolvimento das relações pessoais. Um exemplo são as pessoas que se conhecem em salas de bate-papo ou em sites de encontros e fazem amigos, namoram ou se casam. Mas existem casos de relações reais, concretas e interpessoais que vão sendo substituídas pelas relações virtuais. Se tratam daqueles indivíduos que preferem ficar conversando com um desconhecido na Internet do que jogar futebol com os amigos.
JC – Está aumentando o número de pessoas dependentes da Internet?
Vieira Jr. – Não temos dados concretos sobre isto ainda, mas podemos destacar dois fatores: a popularização da Internet e da banda larga, que oferece o pagamento no valor único e permite que a pessoa passe dias conectada sem pagar uma fortuna de imposto telefônico e, além disso, a linha do computador não “cai”. Para quem utiliza a Internet de forma patológica, este serviço facilitado também favorece o acesso à rede. E a tendência é de que o viciado exagere na utilização da Internet.
JC – Quais são os principais sites ou temas que atraem os viciados em Internet?
Vieira Jr. – Isso varia muito, mas existem as questões mais comuns como as salas de bate-papo ou Orkut, site de relacionamentos que se tornou uma febre. Mas há pessoas que só ficam “surfando” de página para página e também indivíduos viciados em outras coisas que acabam passando muito tempo na Internet em função destas outras dependências. Cito como exemplos as pessoas dependentes de sexo que buscam pornografia na Internet ou em salas de bate-papo para conseguir encontros ou sexo virtual; há compradores patológicos que ficam fazendo compras via Internet e jogadores que utilizam a Internet para freqüentar cassinos virtuais. Em relação a isto, há ainda um outro tipo de jogador não muito difundido que se refere aos especuladores de bolsas de valores, que passam dias conectados à rede investindo em ações.
JC – Quando o vício passa a ser um problema patológico?
Vieira Jr. – Basicamente quando a pessoa começa a sentir que está perdendo o controle de sua vida. Ela queria fazer alguma coisa, mas acaba fazendo outra. É o caso, por exemplo, da pessoa que resolve entrar na Internet por dez minutos para ver seus e-mails e quando percebe permaneceu duas horas teclando em uma sala de bate-papo. E nesta fase alguns prejuízos concretos podem começar a surgir em algumas esferas da vida desta pessoa.
JC – Existe relação entre o vício em Internet e o tempo que o usuário passa em frente ao computador?
Vieira Jr. – Existe algum grau de correlação. Dificilmente exista uma pessoa que passe 20 horas diariamente em frente ao computador e não tenha problemas quanto ao vício. Mas não há uma conexão direta indicando que quanto maior é o tempo dedicado à Internet maior será a dependência. O que se deve levar em conta não é a quantidade de tempo, mas como ele é usado. Existem pessoas que podem usar a Internet por muitas horas sem que isto seja um padrão de uso disfuncional. E existem pessoas que utilizam a rede por pouco tempo mas de forma inadequada, deixando que a Internet as afaste de outras atividades. A dependência não se refere à quantidade, mas à qualidade de uso.
JC – O “vício virtual” pode refletir falta de auto-estima ou tentativa de fuga da realidade?
Vieira Jr. – Acredito que a maior associação é de origem inversa: as pessoas que têm problema de auto-estima ou não estão se dando bem com a realidade podem encontrar na Internet um meio de vivenciar relacionamentos menos ameaçadores. Por exemplo, quando o indivíduo freqüenta uma sala de bate-papo, está digitando e tem mais tempo para pensar sobre o que vai escrever. E para quem tem fobia social ou dificuldade de contato interpessoal, a Internet pode ser uma forma de alívio. Há pessoas, por exemplo, que devido a algum motivo não conseguem ter uma vida sexual muito interessante ou satisfatória e encontram na Internet alguma forma de obter gratificação sexual. E existem pessoas que não vivenciam nenhum problema e fazem uso patológico da Internet.
JC – E qual é a melhor forma de tratamento para esta patologia?
Vieira Jr. – Se entendermos que dependente é uma pessoa que tem uma relação complicada ou prejudicial com algum fenômeno, sejam drogas ou comportamento, não acredito que se deva tratá-la como uma pessoa estritamente doente. Ela pode estar deprimida, com o seu universo existencial muito empobrecido e por isso deixa de ter uma série de possibilidades de interação com o mundo. O fundamental para o tratamento do dependente é uma psicoterapia que ajude essa pessoa a se localizar, entender o que está acontecendo com ela e a descobrir qual é o sentido que a Internet tem em sua vida. À medida que a pessoa percebe como ela mesma “funciona” e quais são suas regras internas, fica mais livre para fazer outras escolhas. E se a pessoa, além de dependente da Internet, tem um transtorno psiquiátrico qualquer, como o bipolar, de ansiedade ou está depressão, ela deve ser tratada com medicamentos especializados porque senão ficará mais difícil tratar do dependente.
JC – O vício virtual pode ser comparado à dependência de drogas, álcool ou tabaco?
Vieira Jr. - Todos têm características muito próprias, mas todos podem viciar. O vício em drogas tem sintomas de abstinência e intolerância. Já o da Internet é relacionado ao comportamento e corresponde à relação que a pessoa tem com determinado comportamento. Mas o aspecto que une todos os vícios é a forma dependente de estar no mundo.