A palavra mito, de origem etimológica grega mytos, possui ricos e múltiplos significados. De noção complexa, o mito não é exclusividade dos povos primitivos nem das civilizações nascentes, pois existe em todos os tempos e culturas como componentes indissociáveis da maneira humana de compreender, absorver e enfrentar a realidade. Um dos significados mais atuais e utilizados para definição de mito surge quando as personalidades tornam-se passíveis de serem mitologizadas, como afirma Joseph Campbell. Isto é, os meios de comunicação de massa incumbem-se de transformar artistas em geral, políticos e esportistas em imagens exemplares. Elas passam a representar no imaginário coletivo todos os tipos de anseios: sucesso, poder, beleza, etc. Como num rito sagrado, há uma “busca desenfreada” de imitar tais seres considerados sobre-humanos. De maneira resumida pode-se dizer: os mitos servem de modelos de conduta para o homem comum, são educadores para a vida.
Sabe-se que o desencanto, a desilusão e o desgosto pela política e, principalmente, com a figura do político, raras exceções viraram senso comum. Motivos não faltam. Não custa puxar na memória os inúmeros escândalos que pontuam os noticiários nacionais. O mais recente deles diz respeito à atitude antiética e inerte do corregedor da Câmara e vice-presidente da Casa, Ciro Nogueira (PP-PI). Ele além de retardar a investigação do caso dos sanguessugas é acusado de empregar assessor acusado de integrar a máfia das ambulâncias. É nesse degradante cenário político que surgem os primeiros nomes para o cargo de presidente da República. Com a formalização da candidatura do presidente Luís Inácio Lula da Silva na convenção petista em 24/6 p.p., na Capital paulista, se faz a seguinte indagação: o que é necessário para um aspirante ao governo de um país como o Brasil se torne um mito? Para responder, talvez seja preciso, primeiro, caracterizar um simples governante de um líder nacional. Ao chefe de governo mesmo sendo bom administrador falta-lhe o atributo da liderança – a capacidade e habilidade de inspirar um povo e o genuíno amor ao serviço público. Para líder nacional, como estudioso de Shakespeare, identificamos alguns atributos necessários para liderar um povo, uma nação, um Estado, na figura histórica-literária do príncipe Hal (1599). Trata-se da história de um jovem nobre que bebia muito e levava uma vida devassa. Alçado à condição de rei da Inglaterra se torna sóbrio, se transforma e acaba emergindo como o grande rei guerreiro inglês Henrique V quando, para garantir a unidade nacional, reivindica de forma legítima terras na França. Não sendo atendido, declara guerra e invade o país vizinho. (De acordo com a sabedoria da época, a guerra no estrangeiro purgava a gama de insatisfação dos pobres e dos poderosos). O decorrer da peça Shakespeare nos revela, magistralmente, as servidões que pesam sobre o homem de Estado; ressalta de maneira impactante que para o governante a lei é a autoridade maior. Em obediência a esse preceito, Henrique V não hesita em mandar executar um grupo de saqueadores (ingleses), mesmo que dentre eles estejam seus antigos companheiros de boêmia. Ao final da trama, o rei inglês conduz seus homens à vitória na batalha heróica de Azincourt. Desse modo, Henrique V, ao fomentar um novo tipo de coesão social, em que governantes e governados traça um círculo de interação, compromisso e responsabilidade pelo país tornam-se um mito político. Nas atuais sociedades democráticas, são raros os países ou senão, particularmente, um (EUA), que podem buscar no conflito bélico externo formas de “aliviar” a tensão interna. Entretanto, para alguns analistas políticos, nem mesmo a guerra constitui instrumento político mais adequado para a solução de problemas estruturais/ conjunturais de um país.
O preço a ser pago pode ser alto demais, que o diga o presidente Bush. Pois bem, é nessa capacidade de fazer escolhas corretas, precisas e responsáveis que se percebe a inteligência do líder. Portanto, um aspirante a líder, na verdadeira acepção da palavra, governa conscientemente, sempre visando resultados saudáveis para nação e obedece aos princípios éticos, às leis tendo como atributo a prudência política. O líder nato, ou seja, o mito político inspira, incentiva, modela, representa uma imagem exemplar de virtudes. O povo, elemento jurídico do Estado, apóia-se no líder político, pois como afirma o filósofo grego Platão, ele oferece uma luz que guia os homens entrevados nas sombras da caverna.
O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor de Ciência Política no Curso de Direito e de Antropologia no curso de Design no Iesb-Preve. Doutorando em Ciência Política e mestre em Ciência Política pela PUC-SP