Auto Mercado

A lenda da mistura milagrosa

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Desde o seu surgimento, em 2003, os bicombustíveis tornaram-se “prato cheio” para os mitos que costumam surgir em torno de algo novo. E, atualmente, três anos após o lançamento da tecnologia, muitos já se dissiparam, mas alguns ainda teimam em aparecer. A “lenda da vez” promete operar um verdadeiro milagre para donos de veículos flex: misturando álcool e gasolina na hora de abastecer seria possível obter a combinação de suas principais vantagens, ou seja, a maior potência propiciada pelo derivado da cana-de-açúcar com a melhor autonomia gerada pelo derivado do petróleo. Será que isso é verdade? Se for, vale mesmo a pena adotar esse hábito?

Especialistas ouvidos pelo AutoMercado & Cia foram taxativos e conclusivos: o procedimento só é válido, com certeza absoluta, para melhorar a partida a frio dos bicombustíveis. Isso porque a maioria desses automóveis, pelo menos no Estado de São Paulo, rodam quase que exclusivamente com álcool - combustível que por suas características físico-químicas tem mais dificuldades, especialmente em temperaturas baixas, de gerar a ignição dos motores do que a gasolina - por ser economicamente mais vantajoso.

O engenheiro mecânico Marcos Serra Negra Camerini, consultor do AutoMercado & Cia na coluna Dr. Automóvel, é um dos que atestam amelhora na partida a frio. “Com um pouco de gasolina no tanque, já fica mais fácil para o álcool pegar no ato da partida. Eu não colocaria mais do que cinco litros de gasolina levando em consideração um tanque com capacidade para 50 litros. Essa quantia dá e sobra para fazer o carro pegar com mais facilidade”, estima Camerini.

Mas os reservatórios de partida a frio existentes nos carros bicombustíveis não estão presentes nos motores para cumprir exatamente essa função? “Aí é que está. Você pode eliminar a necessidade da partida a frio adicionando um pouco de gasolina. Os motoristas americanos estão colocando no tanque o E85, que é composto por 85% de etanol e 15% de gasolina. Isso para eles facilita muito a partida em condições climáticas mais frias que as de nosso País. Por isso, se os americanos, com o clima gelado deles de lá, usam 15%, para nós 10% dá e sobra. Proporções acima dessa, como o meio a meio - 50% de álcool e 50% de gasolina -, são bobagens, pois se estará jogando dinheiro fora”, considera Camerini.

Mas ao opinar se a mistura com uma pequena proporção de gasolina poderia melhorar o consumo dos flex, o engenheiro sustenta que as respostas ao questionamento só seriam possíveis após exames detalhados. “Não sei dizer se com essa mistura o gasto de combustível melhoraria, pois seriam precisos testes para se concluir algo a respeito do assunto”, pondera.

Já para Lourival Ortiz de Camargo, instrutor automotivo da unidade bauruense do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), além de melhorar a partida a frio, a adição de gasolina ao álcool também ajuda a diminuir o consumo enquanto o veículo estiver rodando com o motor frio e fora das temperaturas ideais de funcionamento. “O consumo do álcool é naturalmente maior, porém essa proporção aumenta à medida que o motor está frio. Mas, misturando um pouco de gasolina, o consumo diminuiria nessas condições”, afirma.

Mas qual seria a proporção ideal para, rodando prioritaria-mente com álcool, se conseguir tais vantagens com os flex? Camargo esclarece que a adição de uma pequena porcentagem de gasolina já é suficiente. “Conversando uma vez com técnicos de uma empresa responsável pelo desenvolvimento do sistema bicombustível de uma montadora, eles comentaram que é interessante misturar de 10% a 20% de gasolina no álcool, o que tornaria mais econômico o carro para quem anda na cidade, onde são característicos os trajetos e deslocamentos curtos e o motor acaba trabalhando muito tempo em temperaturas frias”, afirma o técnico.

Mas há também quem não visualize nenhuma vantagem na mistura. É o caso de Edson Silva, outro instrutor automotivo do Senai/Bauru. Para ele, é melhor calcular qual combustível é financeiramente mais vantajoso e não “esquentar” mais a cabeça. “Não vejo benefícios em se misturar e nenhuma montadora assina embaixo a respeito disso. Melhor é fazer um pouco de conta para escolher qual combustível é melhor usar. Eu, por exemplo, não calculo em quilômetros por litro, mas sim em centavos por quilômetro rodado e vejo qual está mais barato para rodar”, finaliza.

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