Gilberto Dias Galvão, 43 anos, passou mais da metade de sua vida nas penitenciárias paulistas. Finalmente anteontem, conquistou a liberdade após cumprir pena de 22 anos, mas precisou pedir ajuda para retornar à casa da família, em Sorocaba. Ele saiu de Balbinos, onde terminou de cumprir a sentença, com uma passagem de ônibus – cedida pela direção do presídio - para Bauru. Sem dinheiro, fora do convívio social e numa cidade desconhecida, o ex-detento manteve a calma e procurou a polícia para chegar ao seu destino.
Ontem pela manhã, ele procurou a Delegacia Seccional, que o encaminhou para o Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade, que mantém serviço de atendimento ao migrante. Na entidade, foi atendido por uma assistente social e finalmente conseguiu a passagem de ônibus até Sorocaba. Na rodoviária, prestes a embarcar, ele disse ao JC que pensou em várias saídas para sua situação quando se viu sem ter a quem recorrer. “Quando me vi na rua, sem dinheiro e sem destino, muita coisa que eu não posso falar me veio na cabeça. Mas eu me controlei”, confessa.
A força para procurar a melhor solução para seu problema ele encontrou na família. “Pensei na minha filha, nos meus pais, meus irmãos, nos anos que passei na cadeia, então decidi procurar a lei”, ressalta Galvão. “Agora eu espero uma ajuda da sociedade. Um emprego para que eu possa me reabilitar e conviver com minha família”, desabafa. Antes de ser preso, disse que chegou a trabalhar como auxiliar de mecânico.
Galvão contou que foi preso em 1984, em São Paulo, por latrocínio. Julgado e condenado a uma pena de 22 anos, passou grande parte da vida no sistema prisional paulista – ele passou por 47 penitenciárias do Estado, até chegar à Penitenciária 1 de Balbinos. Ele afirma que por conta das mudanças freqüentes de presídios, seus contatos com a família foram escasseando.
Atualmente, ele tinha apenas um número de telefone da família. Porém, disse que não conseguiu falar com os familiares porque estariam impedidos de receber ligação a cobrar devido a linha ser do sistema “econômico”. “Se eu tivesse conseguido falar com minha família, tenho certeza que eles mandariam o dinheiro da passagem para a empresa, aqui”, afirma.
Críticas
O ex-detento alega que não recebeu o auxílio que merecia ao sair da prisão. “Não sei explicar o que aconteceu. Acho que se o governo mantém um preso durante todos esses anos, depois da liberdade tinham que dar pelo menos o direito dele chegar até a cidade onde mora”, desabafa.
Ele cobra programas de reabilitação. “Muitos presos fazem bobagem quando são liberados porque não têm quem os ajude quando saem da prisão”, comenta, dizendo que chegou a participar de programa profissionalizante. No entanto, ele afirma que na maioria das penitenciárias por onde passou não existiam trabalhos de reabilitação, inclusive em Balbinos.
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Balbinos
Segundo a diretoria da Penitenciária 1 de Balbinos, algum erro pode ter acontecido para que Gilberto Dias Galvão não tenha saído da unidade com passagem até sua cidade de origem. Ao conquistar a liberdade, a Secretaria da Administração Penitenciária entrega ao ex-detento um passe para ser trocado por uma passagem cujo destino é sua cidade de origem.
No entanto, com a passagem em mãos ninguém mais pode saber qual uso o ex-detento fará dela.