O homem vivia no paraíso. Tudo era muito bom, mas faltava algo que o incomodava: o poder de decisão. Tudo já estava feito, pronto, acabado. Um certo dia, o homem enviou, através de um anjo, uma reivindicação a Deus: “Quero liberdade!”. Deus, sorrindo, pediu ao anjo que escrevesse a seguinte frase sem nenhuma pontuação: “Liberdade impossível o homem no paraíso”. O homem, ao ler a frase, ficou pensativo e, por fim, tomou a decisão de colocar as devidas pontuações: “Liberdade, impossível o homem no paraíso!” Muitas vezes, diante de decisões que devemos tomar, ou simplesmente frente ao nosso futuro, queremos uma “luz”, uma idéia, uma sugestão de Deus ou de um amigo. Tentamos nos socorrer para algum “oráculo” que nos dê segurança. Na verdade, procuramos fugir de algo essencial para o ser humano, mas que ao mesmo tempo muitas vezes nos amedronta: a liberdade.
Para Sartre, a angústia é a condição do ser humano e justamente dela que tentamos, muitas vezes, fugir. Tomamos consciência desta condição de angústia a partir do momento que percebemos que nossa dignidade como pessoas humanas encontra-se no fato de que ninguém pode tomar uma decisão em nosso lugar.
A angústia é o reconhecimento de uma possibilidade como “minha” possibilidade. Em outras palavras, diante das situações e do futuro incerto, sou eu que tenho que decidir. A angústia se torna perceptível quando a consciência se vê na condição de ainda não ser, separada de um futuro possível por sua própria liberdade. O que eu projeto como meu futuro está sempre “nadificado” e reduzido simplesmente à categoria de mera possibilidade, porque o futuro que sou permanece ainda fora de meu alcance.
Se pretendo escrever um artigo, este se constitui em uma possibilidade ainda não realizada. Este artigo é verdadeiramente “meu” possível. Se começo a escrevê-lo hoje, não sei se amanhã irei continuá-lo. Amanhã, com relação a ele, minha liberdade pode exercer seu poder “nadificador”; amanhã posso, por minha própria vontade, desistir de terminá-lo.
Para que minha liberdade venha a se angustiar com este artigo que escrevo, é preciso que eu o assuma como minha própria decisão ou responsabilidade, ou seja, que eu descubra, por um lado, minha essência como aquilo que fui (fui um “querer escrever um artigo”); por outro lado, que eu descubra o nada que separa minha liberdade dessa essência (fui um “querer escrever este artigo”, mas nada pode me obrigar a escrevê-lo); e por fim, que eu descubra o nada que me separa do que serei no futuro (descubro a possibilidade permanente de abandonar o artigo como condição mesmo da possibilidade de escrevê-lo). Estas três dimensões em relação ao artigo é o sentido da minha liberdade.
Como exemplo oposto ao do escrever um artigo, podemos citar o despertador. O despertador ajuda a me libertar da angústia, pois ele me garante o despertar e o ir para o trabalho. O despertador intervém autoritariamente em meu delicioso sono e me recoloca diante de minhas obrigações. Com ele não há escolha. Eu o programo para ser por ele ordenado.
Da mesma forma, a moralidade e a rotina que nos impomos excluem a nossa angústia ética, pois, tanto a moralidade imposta pela sociedade como a rotina do cotidiano na qual fomos mergulhados nos retiram o peso da decisão. Não preciso pensar sobre o meu ser ou meu agir, pois eles são determinados pela expectativa da sociedade. Neste sentido, os valores que possuímos são extraídos simplesmente de sua exigência social, não da exigência de nossa vontade.
Nós não escolhemos os valores através de uma intuição contemplativa que os compreende como sendo valores. Porém, o verdadeiro valor, aquele que assumo não por ser controlado por outros, mas porque estou convicto de sua importância, só pode surgir de uma liberdade ativa. Daí minha liberdade é o único fundamento dos valores e nada, absolutamente nada além da liberdade de pensamento justifica minha adoção dessa ou daquela escala de valores.
O grande problema é que preferimos a tranqüilidade passiva do que a liberdade ativa. Nós não nos angustiamos frente à escolha de valores, porque nos acostumamos com os valores oferecidos pela sociedade. Preferimos viver no “paraíso” do que na angústia da decisão, sem percebermos que o primeiro é o inferno da escravidão, enquanto o segundo é o céu da consciência.
Quando me compreendo como a origem primeira de meu possível, isto é o que se chama de consciência de liberdade, caminho acima das conveniências sociais e dos padrões preestabelecidos. Desta forma, atinjo a condição essencialmente humana, a condição da angústia, mas também o prazer de construir minha própria maneira de existir e, portanto, uma forma autêntica de ser.
Meus atos, então, fazem meus valores se erguerem como perdizes: é por minha indignação que me é dado o antivalor, a “baixeza” e, por minha admiração, o valor, a “grandeza”. Somente com a consciência da liberdade, que é simultaneamente angustiante e prazerosa, posso ter um viver criativo e produtivo, como também fazer realmente a diferença frente à massa social.