Chega julho e os estudantes comemoram a chegada das férias de meio de ano. Enquanto as escolas ficam quase desertas (com exceção alguns alunos em recuperação), os bairros, principalmente de periferia, ficam atopetados de crianças e adolescentes. Só no ensino fundamental (1.ª à 8.ª série) da rede pública de ensino de Bauru (municipal e estadual), mais de 35 mil estudantes ficarão sem aulas, pelo menos durante parte do mês.
No ensino médio estadual serão 10.314 adolescentes. Isso sem contar as crianças de escolas municipais de educação infantil (Emeis), de 3 a 6 anos, além dos de alunos de instituições particulares.
Se a quantidade de estudantes sem aula será grande, o número de opções de lazer disponível na cidade não seguirá a mesma proporção. Viagens, por exemplo, são raras, sobretudo para crianças dos bairros carentes, e, no geral, são feitas para casa de parentes. Franciele Giovana da Silva, de 14 anos, vai viajar para a casa do pai, em Novo Horizonte, onde ficará até o final do mês.
Lá, sabe que irá fazer o mesmo que faria caso permanecesse em sua casa, na Pousada da Esperança. “Nada. Vou ficar o dia todo vendo televisão”, diz ela. Para muitas crianças dos bairros carentes, como ela, ir para fora da cidade, no tempo das férias, é algo impossível. Resta, então, a opção de “viajar” dentro de Bauru.
“Quando chega a época de recesso escolar, crianças de regiões distantes passam a contar com um tempo ocioso maior durante o dia, o que permite que elas ‘desçam’ para a cidade com uma freqüência maior”, explica Maria Cristina de Souza, do departamento de proteção especial da Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes).
“Descer” é a expressão que Souza usa para definir a jornada que crianças de pobres (oriundas das zonas norte e noroeste da cidade, em sua maioria) fazem para chegar até o Centro ou áreas nobres da cidade, como a avenida Getúlio Vargas.
Os objetivos que os movem podem ser vários. Pedir esmolas, passear pela cidade, nadar no lago... A causa para as “viagens”, uma só, a falta de opções de lazer nos bairros em que essas crianças vivem.
Menores pedindo esmolas não são fáceis de ser achados. “Não dá para saber se é o frio que as afasta ou se nosso trabalho está dando resultados”, coloca Cássia Tosim Paley, presidente do Conselho Tutelar de Bauru. Por outro lado, encontrar crianças de bairros pobres desenvolvendo outras “atividades” na parte central da cidade não é algo difícil.
Dois garotos, de 9 e 7 anos, e uma menina de 11 anos mergulhavam no lago do Parque Vitória Régia, numa tarde fria da última terça-feira. Vindas do Parque Jaraguá, trajavam calças de uniforme escolar. “Saímos da aula e viemos direto para cá”, diz o menino mais velho, que ainda não entrou de férias.
Eles afirmam não pedir esmolas, mas não explicam de onde tiraram dinheiro para chegar até o local. Os três são freqüentadores assíduos da região. “Outro dia, a televisão filmou a gente pulando na praça da Paz”, conta o menino mais novo, que batia os queixos e tremia de frio.
Sem opções nos bairros em que residem, resta às crianças da periferia inventarem diversões para ocuparem o tempo ocioso de julho. Brincadeiras como pipa, futebol, bete e burica correm soltas, tendo a rua como playground. Longe dos locais onde poderiam ter acesso à diversão e ao lazer gratuitos, resta a elas não deixar que as diversões improvisadas transformem-se em acidente e encurtem as férias.
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Panfletos
No cruzamento das avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves, um garoto de 14 anos embrenha-se entre os carros e ônibus parados no farol vermelho, na tentativa de abordar os motoristas. Ele não está ali para pedir e sim para dar. O menino entrega panfletos de uma festa e recebe R$ 5,00 do tio, seu patrão, pelo trabalho de duas horas ao dia (das 16h às 18h).
Pedir esmolas certamente renderia mais dinheiro, mas ele contorce o rosto quando a sugestão é mencionada. “Isso é coisa para quem não gosta de trabalhar”, diz, com firmeza de quem sabe que boa parte dos motoristas prefere receber ao invés de dar.
Quando o sinal fecha, ele vai até o meio da avenida, tentando distribuir panfletos ao maior número possível de carros. Se uma motorista acelerasse sem prestar atenção, com certeza ele poderia ser atropelado. Mesmo assim, ele não teme. “É só prestar atenção que nada de ruim acontece”, afirma. Ninguém o ensinou a andar entre os veículos. “Aprendi sozinho, reparando no jeito dos outros entregadores”, garante.
Ele mora na Vila Independência e está na 8.a série. Ainda em época de aulas, não pretende fazer nada na férias, além de entregar panfletos. Outras atividades que possam render alguns trocados diários são bem vindas, com exceção de pedir esmolas.
Diversão nem pensar. “Não tenho tempo”, diz o entregador de panfletos, desviando-se do ócio das férias com a mesma desenvoltura com que se livra dos carros.
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Pipas
Férias de julho, vento, pipas, acidentes... Quem nunca ouviu falar dos perigos do cerol (substância cortante feita à base de cola e pó de vidro)? Usado para cortar linhas de pipas alheias, o produto também pode ‘aparar’ cabos elétricos e pescoços de motoqueiros desavisados.
A Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) é uma das que empresas mais têm problemas no mês de julho. Segundo João Marques Rodrigues, gerente de serviços de campo da empresa para a região de Bauru, as ocorrências envolvendo linhas com cerol triplicam nessa época do ano.
“Quando uma pipa enrosca no cabo de energia, a criança faz força na tentativa de soltar e os fios podem romper ou entrar em curto-circuito”, diz. O preço da brincadeira costuma ser a interrupção do fornecimento de eletricidade para bairros inteiros.
“O sistema de segurança da rede de distribuição cessa o fluxo de energia até que os reparos sejam feitos. Numa dessas, hospitais podem ficar sem eletricidade e fábricas deixar de trabalhar”, afirma ele.
Segundo Rodrigues, não foram registrados acidentes envolvendo pipas nas redes de transmissão da CPFL em Bauru neste ano. “Isso é um alívio”, afirma ele. Os fios de alta tensão dos postes de rua operam com tensões de até 13.800 volts. “Um choque dessas proporções pode provocar seqüelas graves, como perda de membros, e até matar”, alerta.