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...E chega de Copa


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Ninguém mais agüenta falar em Copa do Mundo. Os jornais brasileiros, a televisão, o rádio, todos repetem as mesmas análises enfadonhas. Perdem-se em abobrinhas sobre os usos e costumes na Alemanha, como se devessem ser iguais em todos os países. Lógica é uma questão cultural. Não é uma coisa posta, como queria Aristóteles, tipo é assim e está acabado. Positivista. Quando cheguei a Munique de trem, vindo de Viena, desembarquei na Estação do Sul (Sud Banhoff). De acordo com a minha lógica, para voltar à Viena fui com a bagagem à Sud Banhoff. O homem da bilheteria me disse que ali não saiam trens para Viena. Deveria me dirigir à North Banhoff. “Mas como, se eu desci aqui vindo de onde quero retornar?” E o funcionário me respondeu com um risinho de escárnio, como se estivesse me chamando de idiota: “Chegar é uma coisa. Partir é outra completamente diferente”. Alemão é o português que aprendeu matemática. Alertei o João Bidu, que foi assistir às finais do Brasil na Copa (coitado!). Quando você pergunta o preço de uma mercadoria eles dizem os centavos em primeiro lugar. “Quanto é a salsicha?” “Trinta e três e nove euros”. Você acha caríssimo e passa fome. Em Lisboa a gente espera o trem do metrô olhando à esquerda, como em São Paulo, e leva um susto quando ele chega da direita.

Mais algumas historinhas para enriquecer o aboboral. Em Bauru, o único ainda inconformado com a desclassificação do Brasil, que eu conheço, é o Bigode. Mas por um motivo diferente. Nos jogos da Seleção tudo é perdoado, tudo é argumento para sair de casa e ir se confraternizar com os amigos no bar. Se chegar bêbado em casa foi por patriotismo, amor à camisa canarinho. O Bigode garante que ia mesmo ao bar. Mas, diz conhecer gente que aproveita a folga da vigilância conjugal para ir ao motel na hora dos jogos. “Deve ser emocionante, no motel, imaginar-se um craque no intervalo do primeiro para o segundo tempo e fazer um gol de placa abrindo espaço entre dois zagueiros” – comenta o lírico invejoso. A única declaração inteligente que ouvi nesta Copa foi do jogador francês Thierry Henry, algoz do Brasil e coveiro do futebol de Roberto Carlos: “Quando eu era pequeno e estudava das 7 às 17 horas, pedia, na volta, para minha mãe me deixar jogar bola e ela me mandava fazer o dever de casa. No Brasil, as crianças jogam bola das 8 às 18 horas e ninguém fala nada.” É verdade que, se o negro goleador francês não fosse o talentoso jogador que é, a esta altura estaria lavando latrinas no seu país, mesmo com as aulas que assistiu em período integral. O grande mérito dessa crítica desmerecedora da habilidade do jogador brasileiro foi bater num problema que permeia a nossa realidade.

Já havia dito aqui – “se o brasileiro fosse tão exigente com a educação como é com a Seleção, este país seria bem melhor”. Thierry talvez não saiba que o Brasil tem mais de 180 milhões de habitantes. Deveríamos ter muito mais pelés, garrinchas, romários e ronaldos. Os talentos se perdem não só por causa da deficiência das escolas. Também por falta de assistência média, odontológica e de proteínas. São muitos os garotos que sonham com os contratos milionários do futebol. Pouquíssimos chegam a profissional. Nem conseguem ser jogadores, nem estudam, nem trabalham, nem produzem. A declaração Thierry é procedente. Deve servir como reflexão para aqueles que se propõem a dirigir a nação. A escola brasileira ainda não assumiu o compromisso com a transformação social mediante o saber ler, escrever e discernir. Inexistem escolas em tempo integral no Brasil. Até a merenda do recreio das crianças é roubada por políticos corruptos. O campeão francês pelo Lyon, Juninho Pernambucano, respondeu ao colega. Explicou que as crianças brasileiras jogam futebol por falta de opção e não por desleixo. Esqueceu de dizer de quem é o desleixo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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