Política

Cidade ‘perde’ a metade dos votos

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Nada menos do que 110 mil votos (de 208 mil) foram dados por eleitores bauruenses, na eleição de 2002, a candidatos que não voltaram mais à cidade ou foram anulados e resultaram em abstenção ou ainda ficaram em branco. Na época, a quantidade de votos que foram dados a candidatos que não eram da cidade, além dos nulos, brancos e as abstenções, representou cerca de 52% do total.

Para se ter uma idéia do que significam esses votos, eles seriam suficientes para Bauru eleger mais um deputado estadual e um federal. Candidatos como José Dirceu (PT), Bispo João Batista (PP), Enéas Carneiro (Prona), Jefferson Campos (PTB), José Mentor (PT), Xico Graziano (PSDB), Vicentinho (PT), Michel Temer (PMDB), Otávio Rogério (PDT) e João Herrmann (PSB) juntos levaram de Bauru 29.783 votos.

O bauruense Caio Coube teve em 2002 pouco mais de 72 mil votos. Se recebesse os votos dados aos “forasteiros”, ele seria hoje um representante da cidade no Congresso. Quatro anos se passaram, e agora o eleitor da cidade se vê novamente às vésperas de outra eleição de abrangência estadual e nacional. Atualmente, somos 226 mil em condições de votar. Temos 20 candidatos - dez a deputado estadual e dez a federal.

Além dos votos depositados em candidatos que pouco ou nada fazem pela cidade, outro problema afeta a representatividade eleitoral de Bauru. São os votos nulos, em branco e as abstenções.

Ao abrir mão do direito de escolher um candidato, uma parcela do eleitorado bauruense argumenta que esta é uma forma de demonstrar o descontentamento com a classe política em geral. Por outro lado, existe quem acredita que a qualidade dos políticos só vai melhorar por meio do voto consciente.

Enquanto cada um desses grupos tenta convencer o restante da população sobre a importância de seus pontos de vistas, votos continuam sendo desperdiçados, para o desespero dos políticos locais.

Para o consultor político Gaudêncio Torquato, o voto nulo ou em branco é encarado pelo eleitor como uma maneira de demonstrar toda sua insatisfação diante dos escândalos que invariavelmente envolvem a classe política.

Segundo ele, indignado com a crise moral vivida pelo parlamento nacional, por causa do mensalão e absolvição de mensaleiros, entre outros motivos, o eleitor tende a dar o troco votando nulo ou em branco.

Entretanto, Torquato acredita que esse tipo de atitude acaba beneficiando exatamente aqueles que os eleitores descontentes querem punir. Na visão dele, isso ajuda a eleger justamente os mensaleiros, que têm condições de fazer uma campanha cara e, desta forma, se expõem mais para os eleitores.

“Eu diria que existe um pensamento social equivocado de se votar branco ou nulo para punir político. Quando, na verdade, isso não pune. É um erro, porque serão eleitos todos aqueles que bancarem com maiores recursos suas campanhas”, afirma.

Para Torquato, cada campanha política tem o seu clima. E o da eleição deste ano sugere um certo afastamento do eleitor por causa das denúncias recentes de corrupção. E isso reflete diretamente na quantidade de votos brancos, nulos e nas abstenções.

“A não ser que haja uma campanha de conscientização do eleitor para que ele escolha candidatos dignos, o quadro (de votos inválidos) não deve mudar.” Essa mudança, de acordo com ele, passa necessariamente pela reforma política e pela instituição da fidelidade partidária.

“Mesmo que o Congresso não tenha interesse em certas mudanças, a pressão da sociedade será tão grande que elas terão de ser feitas.” Na opinião do consultor político, a situação política no Brasil chegou a um nível insustentável. “Temos que mudar. Não dá para agüentar mais uma legislatura com a mesma paginação da atual. Essa foi a pior de todos os tempos”, critica.

Descaso

Os intermináveis casos de corrupção envolvendo políticos também são apontados pelo filósofo Fausi dos Santos como as principais razões pela indiferença com que parte dos eleitores encaram as eleições.

“Nós temos notado nos últimos tempos um crescente ceticismo por parte das pessoas em relação às instituições ou meios que envolvem serviços públicos. Grande parte disso se dá pela frustração causada pelos políticos, de uma forma geral”, acredita.

Segundo ele, essa descrença é refletida nas urnas, em forma de abstenção e de votos nulos e brancos. “As pessoas estão indiferentes porque elas estão profundamente sem esperança diante do cenário político atual”, diz.

A opinião é compartilhada pelo professor de direito constitucional Sérgio Luiz Ribeiro. Além da indiferença em relação à política, ele cita ainda outros dois fatores que podem estar influenciando o ânimo dos eleitores.

Um deles seria a participação quase nula das pessoas nas decisões que interferem diretamente no cotidiano das cidades onde vivem, ou mesmo dos Estados e da União. Ribeiro defende uma participação maior da sociedade na definição de políticas públicas e na elaboração de orçamentos, como já ocorre em algumas cidades com o orçamento participativo.

Segundo ele, o outro fator de desestímulo do cidadão no sistema político é ele não acreditar na possibilidade de mudança da realidade em que vive.

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