A menos de um ano de se aposentar, o motorista Edson Gati, 52 anos, viveu ontem o pior dia de sua profissão ao acompanhar a morte de seu colega de estrada Valdir da Silva, 36 anos, após colisão na rodovia Marechal Rondon na altura da avenida Cruzeiro do Sul, por volta das 6h. Gati, que conduzia um caminhão com carga inflamável, pulou da cabine com medo das chamas e assistiu à beira da pista, sem poder de reação, Valdir preso na cabine do outro caminhão sendo consumido pelo fogo e esmagado entre as ferragens. O filho de Valdir, Guilherme Ribeiro, de 12 anos, foi retirado do caminhão com a roupa em chamas e socorrido ao Pronto-Socorro. Até ontem à noite, o menino, que acompanhava o pai em seu início de férias escolares, permanecia internado na UTI do Hospital de Base em estado grave, com 80% do corpo com queimaduras e várias fraturas.
Em depoimento ao delegado do Plantão Policial, Eduardo Samuel Sganzela, Edson Gati contou que foi surpreendido com um caminhão Ford Cargo em colisão contra a traseira de seu veículo Mercedes Benz. “Eu passei do ponto de entrada na rodovia para ter acesso à avenida Cruzeiro do Sul e sinalizei para começar a sair da pista quando ouvi o barulho da batida em minha traseira. Não notei a chegada do outro veículo. Ao perceber o fogo no meu caminhão, que carrega álcool, pulei e corri com medo. Foi quando eu vi o outro caminhão também com labaredas e tentei buscar socorro”, descreve Edson Gati.
Pai de dois filhos e morador em Presidente Epitácio (SP), na divisa com Mato Grosso, onde fica a sede da empresa JLC Transportes, Gati partiu de sua cidade na última sexta-feira, por volta das 19h, trazendo 29.900 litros do produto inflamável para descarregar em Bauru.
Conforme o delegado Sganzela, um adolescente ouvido como testemunha disse que teria observado o caminhão Mercedes tentando iniciar manobra de ré, logo após passar pelo ponto de entrada da alça que dá acesso à avenida, uns 15 metros após a placa indicativa, no sentido Capital-Interior da rodovia Marechal Rondon, em direção ao trevo Santa Luzia.
Contudo, Edson Gati afirma que não executou manobra de marcha ré para tentar retornar ao ponto de entrada para a avenida. “Eu sinalizei para sair da pista e, ao começar a encostar, reduzindo velocidade, liguei o pisca-alerta e isso pode ter confundido alguém. Mas eu fui surpreendido, junto com meu companheiro de viagem, com o outro caminhão batendo em minha traseira. Assustado com o fogo e o estouro de pneus eu pulei, assim como meu companheiro”, comenta.
O delegado menciona que, conforme o depoimento de Gati e do companheiro de viagem, Djalma Ribeiro Costa, a colisão aconteceu logo após a redução da velocidade para deixar a pista. “A posição dos caminhões no local do acidente indica isso, mas os dados da perícia e a investigação policial vão esclarecer os fatos. Costa disse que acordou quando ouviu o estrondo. Ele diz que não percebeu seu colega executando ré na pista, mas apenas sentiu que o caminhão estava parando, quando acordou com o barulho”, descreve.
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A viagem
Edson Gati deixou Bataguassu (MS) na noite de sexta-feira para transportar álcool anidro para Bauru, missão que disse já ter cumprido outras vezes. “Nunca me envolvi em acidente antes. Este é o primeiro e no ano que vem me aposento, infelizmente levando comigo essa memória triste da morte de um pai de família como eu e o filho dele queimado”, lamenta.
O motorista com 34 anos de profissão diz que não rodou a noite toda, alegando ter parado para dormir no posto Paloma, na rodovia Bauru-Ipaussu, para depois seguir viagem pelo restante da madrugada de início de ontem. Outro detalhe que incomodou Gati é que ele e a polícia não localizaram sinais de frenagem do caminhão conduzido por Valdir da Silva.
A vítima fatal não teve chance, morrendo na hora com parte do corpo mutilado pelas ferragens em sua carroceria, destruída pela batida. O caminhão Ford Cargo do ramo de frigorífico que bateu contra a carga de combustível estava vazio.
A viagem de Bataguassu a Bauru soma pouco mais de 430 quilômetros de distância. “Estou com dor na coluna e assustado. Na hora não pensei em outra coisa a não ser pular”, reforça Gati. A pista da Marechal Rondon sentido Capital-Interior ficou interditada até o início da tarde de ontem pelo Policiamento Rodoviário.
O caminhão-tanque teve a carga destruída pelo fogo, após o rompimento da válvula de segurança. O acidente foi registrado no quilômetro 341, mais 200 metros da SP 300. O Corpo de Bombeiros atendeu à ocorrência com 17 profissionais, consumindo cerca de 18 mil litros de água para conter o incêndio nos veículos em um trabalho que levou pouco mais de 30 minutos para ser concluído.