Se a dor física indica algum problema no organismo, a dor emocional, caso do ciúme, tem a função de alertar a pessoa que algo não está funcionando bem em si própria, no parceiro ou em seu relacionamento afetivo. É o que explica o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos no livro “Ciúme, o medo da perda” (Editora Claridade).
Em uma relação amorosa, por exemplo, o ciumento pode “infernizar” a vida do outro com seu controle e desconfiança excessivos, aponta o especialista. “Muitas vezes o parceiro é obrigado a ter na ‘ponta da língua’ as respostas para as mais absurdas perguntas que a parceira possa fazer, como: ‘Você estava olhando para aquela mulher?’”.
De acordo com Eduardo, existem quatro maneiras de demonstrar ciúme e o medo da perda. Ele explica que em sua essência o ciúme nunca é saudável, a não ser quando se trata do sentimento de zelo, que está intimamente ligado ao amor.
Voltado ao bem-estar e à felicidade do ser amado, o zelo é altruísta e exige, muitas vezes, a renúncia do próprio desejo em benefício do outro. Mas um dos tipos mais comuns é o enciumado, no qual o ciúme se manifesta de maneira transitória e surge quando há uma ameaça real à relação, colocando a pessoa em estado de alerta e competição com um terceiro.
Já o ciumento independe de evidências de ameaça e tem como base a fantasia, o medo infundado de ser traído ou trocado por outro. Tem caráter egoísta, uma vez que o foco do ciumento é seu “amor próprio”, suas inseguranças, dificuldades e necessidade de manter o outro sob seu controle.
“O ciúme é egoísta e o zelo é altruísta. Muitos ciumentos, no entanto, enganam a si mesmos afirmando que suas manifestações de ciúme são apenas zelo, o que não é verdade”, aponta Eduardo.
Há ainda o nível patológico do ciúme, que transforma uma fantasia em suposta realidade, sem nenhum dado de evidência ou simplesmente distorcendo a realidade. Nestes casos, é aconselhável procurar ajuda especializada.
____________________
Tratamento de choque
A melhor forma lidar com o ciúme, destaca o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro “Ciúme, o medo da perda” (Editora Claridade), é trabalhar suas causas, aquilo que está originando este sentimento.
“Geralmente a auto-estima baixa, devido até mesmo a mecanismos neuropsicológicos, pode estar na base dessa angústia”, diz. O tratamento, nestes casos, deve promover a reconstrução de crenças distorcidas da pessoa ciumenta sobre si própria, em relação aos outros e ao mundo, aponta o psiquiatra.
Ciumenta de carteirinha, a advogada Mariana (nome fictício a pedido da entrevistada), 36 anos, conta que já procurou ajuda de um psicólogo e tomou medicamentos alternativos, como florais, para tentar resolver o problema. Como não obteve o resultado esperado, decidiu fazer um “tratamento de choque” visando controlar e aprender a conviver com este sentimento. Seu primeiro passo foi sair da casa dos pais e morar sozinha.
Além disso, mudou também seu modo de encarar sua própria vida e seus relacionamentos. Passou a refletir, se conhecer e trabalhar suas fraquezas. “O ciúme parte da insegurança e do medo que tenho de ficar sozinha, de ninguém gostar de mim ou me dar importância, mas percebi que isso tudo era uma loucura”, diz.
Solteira há um ano, Mariana avalia que a experiência está dando certo. “Estou aprendendo a lidar com minha insegurança e respeitar o espaço do outro. Percebi o quanto eu estava sendo ridícula quando ficava vigiando os passos do outro. Não estou procurando ninguém, mas meu próximo relacionamento será, com certeza, mais leve.”