Articulistas

Por que os países ricos são ricos e os pobres são pobres?


| Tempo de leitura: 3 min

Quem diria ou esperaria que entre as teorias econômicas uma delas poderia nos dar respostas a questões tão pertinentes às economias sociais através de análise das culturas locais incorporando variáveis não-econômicas na análise do processo secular sobre a problemática do crescimento x estagnação relativa a países não reconhecidos ainda como plenamente desenvolvidos.

Um estudo realizado pelo economista David Landes e comentado pelo professor-titular da Faculdade de Economia da USP Eduardo Giannetti da Fonseca oferece-nos novas perspectivas acerca das causas da pobreza e riqueza das nações. O trabalho de David Landes enfatiza aspectos da temática do crescimento que foram negligenciados pela teoria econômica moderna.

O que se busca é ter uma mínima compreensão que explique as absurdas diferenças de produtividade e bem-estar material que se observam na economia mundial, por exemplo, Brasil e Estados Unidos.

A tese de Landes é de que as diferenças de desempenho econômico e grau de desenvolvimento observáveis na história da humanidade resultam essencialmente de fatores culturais e comportamentais ligados à predominância de valores éticos, normas de convivência e arcabouço institucional. Eduardo Giannetti traz à discussão questões pertinentes às condições do desenvolvimento econômico brasileiro.

Inicialmente, aborda o problema que polarizava os debates sobre o diagnóstico do atraso econômico brasileiro e as estratégias para vencê-lo. Em décadas passadas, entendia-se que o que mais impedia o crescimento nacional é que os países pobres são pobres porque os ricos são ricos; ou seja, uma simples relação de causa e efeito. David Landes explica este efeito como o fatalismo da cultura da culpa. Esta idéia se baseava na argumentação de que haveria uma ordem mundial injusta e opressiva dentro da qual qualquer pretensão de desenvolvimento industrial por parte dos países periféricos estava condenada ao fracasso.

Para Eduardo Giannetti, a crença de que a riqueza dos países ricos saiu da pobreza dos países pobres fazia todo sentido na era colonial, mas imaginar que a cultura da culpa possa ter qualquer validade nas condições atuais do mundo não passa de consolo precário, lembrando que ao final da Segunda Guerra Alemanha e Japão eram pouco mais do que um monte de cinzas e humilhação.

Argumento suficiente para aceitarmos novas explicações para o nosso atraso econômico. No entanto, não desconsidera as raízes de nossa cultura de um passado colonial católico, patrimonialista e escravocrata, mas entende que nenhum país está condenado a viver preso ao passado, expiando males de origem.

Em síntese, Eduardo Giannetti aponta as seguintes proposições acerca do atraso econômico nacional. Primeira - a ilusão do “grande consenso desenvolvimentista” de imaginar que o fenômeno complexo do crescimento podia ser reduzido a uma dimensão puramente técnica, como se fosse apenas um problema de engenharia econômica. Para estes estudiosos, o processo de desenvolvimento de uma nação depende de instituições adequadas e, principalmente, da formação de uma base ética e educacional.

Segundo - as regras do jogo – incentivos e restrições, existência de direitos de propriedade, padrão monetário confiável, entre outras - e a qualidade dos jogadores de um sistema econômico, serem mais do que quaisquer outras variáveis porque determinam o resultado do jogo econômico em termos de crescimento da produção per capita.

A qualidade dos jogadores, segundo os autores, representa o capital humano na sua dimensão não apenas cognitiva, mas também ética. Isto porque, numa economia de mercado, um elemento crucial para que a disposição de investir se fortaleça é a confiança.

Giannetti conclui afirmando que o desafio do desenvolvimento é visto como sendo essencialmente o da formação de capital humano, ou seja da criação de competência cognitiva e de uma infra-estrutura moral compatíveis com a assimilação das técnicas produtivas e dos requisitos organizacionais da economia moderna. E que, tanto a constituição de uma ordem econômica eficiente quanto o exercício da cidadania na vida produtiva dependem de um processo de formação de crenças e sentimento morais sobre o qual muito pouco se sabe de um ponto de vista científico.

A autora, Adriana Nigro Cardia, é professora de Jornalismo, mestre em Comunicação Organizacional/Corporativa pela USP e consultora - e-mail: Adriananigro2002@yahoo.com.br

Comentários

Comentários