Ao contrário do que muita gente pensa, a carne bovina brasileira é melhor em qualidade e sanidade do que a carne do gado europeu e de países como Estados Unidos e Japão. Quem afirma é o médico veterinário Amilton Souza de Mello Júnior, especialista em carne bovina. Segundo ele, os bovinos brasileiros apresentam menor teor de gordura, o que favorece a possibilidade dos criadores investirem na carne “light”.
“Apostar nessa vantagem do nosso boi pode significar o alcance de mais nichos mercadológicos. Nos outros países, as raças (de bovinos) têm muito mais gordura”, comenta. Entretanto, segundo Mello Júnior, os bovinos brasileiros têm duas características que são consideradas negativas no Exterior. Eles têm carne mais dura que a do gado criado na Europa, Estados Unidos e Japão, além de uma periodicidade maior para o abate.
De acordo com o veterinário, a rigidez da carne brasileira é maior porque a raça mais comum no País, nelore, é típica de clima tropical e resistente a pragas, como carrapatos e moscas. Essas dificuldades ambientais, de acordo com o veterinário, resultam nestes diferenciais à carne brasileira.
Na Europa e nos Estados Unidos, conforme Mello Júnior, o gado atinge o peso ideal para o abate em 13 meses. No Brasil, esse prazo chega a 18 meses quando os animais são cruzados em laboratório. Com o cruzamento natural - diretamente no pasto -, os bois podem levar até três anos para atingir o período do abate.
“O ideal é começarmos a misturar as raças brasileiras com as européias. Dessa forma, é possível herdarmos a reprodutividade rápida com características boas dos dois tipos de gado. Precisamos de um animal rústico, mas que nos traga produção rápida”, acrescenta o veterinário.
Apesar de tantas exigências do exterior para que a carne brasileira seja aceita, Mello Júnior destaca que os frigoríficos do País são referência em todo o mundo em higiene.
“Meu trabalho de mestrado prova isso. Temos menos contaminantes rodando dentro dos frigoríficos do que outros países que são nossos clientes. Isso porque nossos processos de higiene são bem melhores”, destaca.
A posição dos frigoríficos brasileiros, segundo o veterinário, foi conquistada há cerca de cinco anos com o processo de rastreabilidade da carne, que principalmente os países europeus passaram a exigir para continuar comprando do Brasil. O procedimento consiste em levantar toda a procedência do animal, do pasto ao frigorífico. Constata, por exemplo, o manejo sanitário que o animal teve e a que tipos de vacinas foi submetido.
“O Brasil conseguiu, através da rastreabilidade, conquistar a confiança dos importadores e, conseqüentemente, aumentar suas exportações”, completa.
De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), de janeiro a junho deste ano o Brasil exportou US$ 1.365.239 em carne bovina para diversos países, o equivalente a 572.433 toneladas.
No ano passado, os frigoríficos brasileiros fecharam o ano com faturamento de US$ 3,149 bilhões em exportações, valor recorde. O crescimento foi de 22,4% sobre o ano anterior. O volume de exportações também foi recorde: 2,390 milhões de toneladas, ou seja, 18% a mais do que em 2004.
Se não fossem pelos casos de febre aftosa registrados no Mato Grosso do Sul em outubro de 2005, os resultados poderiam ter sido ainda maiores.