Toda vez que o estigma da improbidade e o velho jogo de interesses pessoais e de grupos sobrepõem-se aos anseios maiores da sociedade, é inevitável refletir sobre a essência semântica da democracia, ou seja, o “governo do povo”. E como governam os cidadãos? Por meio da eleição livre dos membros do Executivo e do Legislativo. Num regime presidencialista como o brasileiro, contudo, cabe ao Parlamento o principal papel de representatividade popular, conceito, aliás, expresso na Constituição de 88. A Câmara dos Deputados é a presença efetiva de cada habitante na estrutura do poder político da República.
Tais considerações são importantes neste momento em que, mais uma vez, o Brasil terá eleições para deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. É necessário perguntar, num justo questionamento, se, de fato, todos os segmentos da sociedade estão devidamente representados no Executivo e Legislativo. A resposta, infelizmente, é um estrondoso “não”. O mais grave é que dentre os “sem-bancada” no legislativo federal incluem-se os trabalhadores e os aposentados e pensionistas, ou seja, um dos segmentos da população mais desarmados no tocante à capacidade de articular lobbies e/ou praticar tráfico de influência. De fato, faltam no Congresso Nacional, lideranças autênticas e realmente comprometidas com a causa dos trabalhadores e dos aposentados e dispostas a erguer a voz em prol desse importante segmento da população brasileira, ou seja, aqueles que dedicam toda uma vida à produção e geração de riquezas para o País. Ao criar este vácuo de represen-tatividade, o Legislativo conspira contra a própria essência da democracia. Não se trata, aqui, de estabelecer qualquer antagonismo entre capital e trabalho. Ao contrário, acreditamos que o mais contemporâneo conceito de desenvolvimento deva basear-se na sinergia entre ambos, visando ao crescimento sustentado da economia, à multiplicação de empregos e à distribuição de renda por meio de salários dignos e com adequado poder de compra. No entanto, nesta relação não pode estar ausente o poder moderador do Estado, na equanimidade das prerrogativas democráticas. O que se vê, entretanto, é um grande avanço da interação entre trabalhadores e empresas, enquanto o Estado, pasmem, converte-se em algoz de ambos, atuando sabe-se lá em prol de quais causas e bandeiras. Os trabalhadores verdadeiros são hoje os “sem-bancada” no Parlamento. Mais do que nunca, portanto, é preciso resgatar a representatividade no Congresso Nacional daqueles que transpiram seu patriotismo nas jornadas de trabalho por um Brasil melhor e mais justo.
O autor, Antonio Carlos dos Reis “Salim”, é presidente licenciado Confederação Geral dos Trabalhadores e do Sindicato dos Eletricitários de SP