Quando ainda estava sendo construído, num sistema de mutirão que envolvia moradores de 15 favelas de Bauru, o Núcleo Fortunato Rocha Lima era considerado um sonho de uma vida mais digna para centenas de famílias e projeto social de referência nacional. Mas vieram invasões, a criminalidade, miséria, o descaso do poder público e o bairro tornou-se sinônimo de pesadelo.
Agora, passados dez anos do início do projeto, o Fortunato vai aos poucos acordando. As ruas ganham asfalto, projetos sociais unem-se num esforço para vencer a pobreza local, os moradores passam a questionar o preconceito dos demais bauruenses em relação a eles e, sobretudo, a regularização das casas parece estar perto do fim.
Transformações lentas, mas que aos poucos vão mudando a cara do núcleo, que teve de conviver durante anos com a incômoda alcunha de ‘Desfavelamento’.
Em meio a tantas alterações, a criminalidade, que ainda permanece fortemente arraigada à imagem do bairro, começa a dar sinais de cansaço. “A violência dali diminuiu bastante nos últimos anos”, afirma o capitão Flávio Jun Kitazume, comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar, que atua na área onde o núcleo está localizado.
De acordo com dados fornecidos pela PM, de janeiro de 2002 a julho de 2006, foram registradas 292 ocorrências no Fortunato, número considerado baixo pelo comandante. A maioria são queixas de lesão corporal, 50 ao todo. A polícia ainda registrou 30 furtos e 12 roubos. Homicídios foram cinco.
A quantidade anual de ocorrências manteve-se praticamente estável (60, em média) entre 2002 e 2005. Agora em 2006, restando ainda cinco meses para o final do ano, a polícia já registrou 53 crimes no bairro.
Desavisados podem enxergar nos dados um indício de retorno da época violenta do bairro, quando criminosos matavam-se pelo controle de pontos de venda de droga e pessoas comuns eram obrigadas a pagar pedágio aos bandidos para poder entrar em casa. Segundo Kitazume, a situação agora é diferente.
“Os moradores do Fortunato estão começando a sentir mudanças em sua qualidade de vida, devido às obras de infra-estrutura que o bairro tem recebido e à atuação da entidades sociais. Essa melhora faz com eles se tornem mais conscientes de seus direitos e passem a cobrar o poder público com mais insistência”, acredita.
Ou seja, o número de ocorrências cresce porque, após anos entre sonhos e pesadelos, a população do Fortunato começa a cansar-se dos desmandos dos criminosos e cria coragem para denunciar.
Ao poucos, os moradores vão tomando gosto pela mobilização. Num local marcado pela miséria e pelo descaso do poder público, lutar pelos direitos não é opção, mas sim questão de sobrevivência.
As obras de asfalto do núcleo, por exemplo, permaneceram paralisadas durante meses, apesar de a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), administradora do conjunto, haver liberado mais de R$ 600 mil para que a pavimentação fosse feita.
Os trabalhos só foram retomados depois que os moradores fizeram manifestações e buscaram apoio nos órgãos de imprensa para exigir seus direitos.
Apesar da mobilização, toda ajuda sempre é bem vinda. Atuam hoje no Fortunato três instituições sociais, todas mantidas por igrejas. As entidades sobrevivem por meio de doações e convênios firmados com secretarias municipais.
As mudanças são lentas, mas já podem ser sentidas. Moradores já não aceitam ser rotulados de forma negativa. As ruas recebem melhorias e algumas casas ganham reformas. Em meio a graves problemas de desemprego, pobreza, analfabetismo, aos poucos o Fortunato acorda e a década de sonhos e pesadelos vai sendo aos poucos deixada para trás.