Certa vez, um jovem encontrou-se com um anjo e, aproveitando a oportunidade, lhe fez um pedido: “Por favor, me ensine o caminho certo para uma vida feliz!” Com toda simplicidade, o anjo respondeu: “Caminha! Caminha simplesmente, mesmo que seja pela escuridão, segure nas mãos de Deus e reflita sobre cada passo. Pois não há caminho traçado. Você fará o seu próprio caminho para a felicidade!”.
Como seres racionais, nós possuímos a capacidade de compreender nossas reações, emoções e sentimentos. Os seres humanos não devem permanecer como seres movidos por paixões, ou seja, como seres passionais, agindo desorientados simplesmente segundo sua índole e seus instintos.
Com certeza, nossa vida parece ser, muitas vezes, como um barquinho em um mar agitado. Mas o ser humano possui a capacidade de se compreender e se educar, deixando de possuir simplesmente um instinto e fundamentando uma verdadeira vontade.
Na antigüidade ocidental, o grande objetivo de se pensar na vida, nos comportamentos humanos e em nossa vontade era alcançar uma “estética da existência”, ou seja, a confecção de um “artesanato”. Em outras palavras, o caminho para o bem-estar era fazer da vida uma verdadeira obra de arte.
Para os antigos, o referencial era a beleza do cosmos. A vida humana deveria se transformar em um cosmos, ou seja, em um todo belo e organizado. Os antigos chamavam de “areté” (virtude) a arte de trazer para a cidade a beleza do cosmos.
Fazer da vida uma obra de arte abrangia todas as dimensões da vida humana: minha rotina diária, minha atividade profissional, meus relacionamentos, o conforto, a limpeza e a beleza de minha casa, rua, praças e cidade. O corpo humano saudável também era utilizado como metáfora para o comportamento ético. Como dizia Hesíodo, a ética é resultado de um esforço de manter um organismo (a vida) em pleno desenvolvimento sem deixá-lo adoecer. Esta tentativa de construção de vida era o que, para Aristóteles, caracterizava a virtude dos heróis.
Segundo Epíteto, o primeiro passo para se viver como herói é não nos preocupar com as coisas que não podemos dominar ou controlar, mas com a representação que fazemos delas, pois é ela que podemos controlar, dominar e fazer uso.
As coisas ou situações não são fundamentais, mas o que elas significam para nós, o lugar que as colocamos em nossa vida. Para isso, precisamos nos tornar “escolásticos”, ou seja, necessitamos entrar para escola. Em outras palavras, a vida deve ser vista, antes de mais nada, como uma verdadeira escola. O ser humano precisa praticar diariamente o pensar, o raciocinar sobre o significado das pequenas coisas que estão a sua frente: um prato de comida, o salário, um livro, o sexo, o amor, os amigos, os sinais de trânsito, a rua esburacada, o imposto pago, etc.
Para isso, é necessário se colocar na atitude de aluno, o que não é muito fácil para as pessoas humanas, pois cada pessoa humana forma um beliche: dormimos em baixo e nosso ego em cima. O ideal é nos transformarmos em uma confortável cama de casal: abrangente, espaçosa e pronta para partilhar experiências sem hipocrisia.
Nesta escola da vida não existe “ensino”, mas somente um concreto aprendizado. O que surge na existência é resultado do aprendizado e este é uma soma de nossas vivências. Podemos até tentar transmitir idéias, instigar ou provocar as pessoas a pensar. Mas somente a partir do despertar para determinadas experiências é que pode surgir aquilo que permanece e transforma: o aprendizado.
Justamente neste ponto está o segundo passo para tornar a vida uma verdadeira obra de arte: a atitude. As atitudes são mais importantes que as palavras. As palavras podem convencer, mas as atitudes arrastam, transformam, criam uma nova realidade. As atitudes são poderosas porque são experiências. Elas criam situações tanto para quem toma as atitudes como para aqueles que são influenciados por elas.
Na verdade são as atitudes das pessoas que permanecem marcadas na memória e em nossa história. Os filhos prestam muito mais atenção naquilo que os pais fazem do que no que os pais dizem. Como afirmou o pensador alemão Horckheimer, o conhecimento da realidade social é o movimento da ação social e vice-versa.
Nós conhecemos nossa realidade a partir do momento que interagimos com ela, a partir do momento que tomamos atitudes diante das situações. O nosso corpo, a nossa mente, a nossa família, a nossa organização social e econômica são materiais, com os quais podemos construir uma linda obra de arte. Esta, porém, só é construída a partir do momento que pensamos e escolhemos o significado das coisas e reorganizamos a vida em busca de algo comum: o bem-estar de todos.