Milhões de espectadores assistiram à escandalosa intervenção, na novela Páginas da Vida, de uma senhora de 68 anos que teve seu orgasmo pela primeira vez aos 40, masturbando-se. O mundo do espetáculo é assim. Está sempre precisando de coisas novas. A cidadã acordou “toda babada” depois de ouvir uma música do Roberto Carlos, segundo seu depoimento. Nós, homens, somos mesmo inúteis. As mulheres não precisam da gente para nada, a não ser pagar as contas. Bastam dois dedinhos e a felicidade estará completa, pelo menos quanto à satisfação da libido.
Em vez de a ficção servir para chamar os telespectadores à consciência face uma determinada realidade, Manoel Carlos, o dramaturgo global, inverte o processo. É o real sendo caçado para salvar a ficção desgastada. Isso nem inédito é. Foi experimentado, com sucesso implícito, em trabalhos anteriores. O uso do real na novela apareceu em Mulheres Apaixonadas (2003), com a bala perdida, um drama vivido pelos moradores do Rio de Janeiro. Em O Clone, Glória Perez utilizou-se de viciados reais em tóxicos e seus familiares; em América foram deficientes na vida real. Os depoimentos de cidadãos comuns colhidos na rua e apresentados ao final de cada capítulo, talvez seja uma forma de conferir legitimidade ao texto ficcional. Os filmes de Hollywood destinados ao entretenimento se infantilizaram tanto que perderam a complexidade do humano. Estaria até disposto a considerar uma “ousadia necessária” a fórmula empregada pelo autor a fim de chamar a atenção para o seu produto. O que me arrepia é o risco de se impor sentido a meros símbolos arbitrários para denotar certas questões complexas. Vamos ver se consigo me fazer entender: grande parte da população brasileira que assiste às novelas está comentando o inusitado da fala daquela senhora sobre o orgasmo. Os problemas mais importantes advindos daí, como o da frigidez sexual feminina; da mulher ter que pagar o débito conjugal, como estava escrito no Código Civil; dessa escravidão patriarcal de se submeter ao macho; ter que abrir as pernas quando o marido quer... tudo isso, drama para milhões de mulheres, passa despercebido. Simplesmente não é discutido. Então, esse tipo de novela é anestesiante. Em vez de chamar a atenção para algo que precisa ser mudado leva as pessoas a um estado de conformismo.
Uma forma reducionista de tratar assunto complexo. Outro dia li num livro o resultado de uma pesquisa da prestigiada Universidade de Cornell dando a entender que o amor é, na verdade, uma droga. Para ser preciso, o que produz a sensação que chamamos de “paixão” é um coquetel de dopamina, feniletinamina e oxitocina na corrente sangüínea. O amor, afirmaram os pesquisadores, é uma forma de loucura quimicamente induzida. Esse estado perdura até que o corpo desenvolva imunidade às substâncias envolvidas, o que demora exatamente o tempo necessário para que um casal namore, case e crie um filho até a primeira infância. Em ciências sociais, reducionismo é a idéia (errônea) de que é possível compreender as coisas reduzindo-as às suas partes componentes, ou de que processos complexos, de grande escala, podem ser compreendidos em termos de processos mais simples.
Vários filósofos contemporâneos, como Hegel e Wittgenstein, trataram do assunto. Através de palavras e de imagens não espelhamos o conteúdo do objeto (fenômeno social) a que elas se referem. A semelhança surge quando somos capazes de relacionar imagens e palavras com objetos (fatos sociais) num determinado contexto. Wittgenstein dizia que “só há uma coisa no mundo que uma imagem não pode representar – ela mesma”. Tentar falar do problema da vida – ou de valores éticos e estéticos – é um exercício inútil sem o exame dos efeitos a partir das suas causas. As verdades mais importantes serão aquelas que podem ser somente demonstradas e não apenas ditas. O filósofo dizia que seu trabalho consistia em duas partes: a que ele escreveu e a que não escreveu. “E precisamente esta segunda parte é a importante”.
Helena, protagonizada por Regina Duarte, vai adotar uma criança com síndrome de Down. A garota, portadora da síndrome na vida real, é a Joana, filha de alguém que eu conheço, o escritor Edvaldo Mercunzel. Inclusive ele escreveu um livro - Do luto à luta - contando suas experiências pessoais com a Joaninha. A mãe, na novela, vai dar à luz gêmeos. Uma das crianças é normal. Se não houver toda uma conscientização sobre os problemas de socialização vividos pelo down vamos ficar apenas na exploração barata de mais um drama pungente que aflige milhares de famílias. Sei que o pai real da criança jamais concordaria com a filha desempenhando seu próprio papel na novela se não fosse, para que a população entenda melhor essas crianças especiais às vezes chamadas, preconceituosamente, de mongolóides. São crianças iguais as outras: brincam, correm, choram, riem. Serão capazes de amar e ter orgasmos. A única diferença é que têm um cromossomo a mais que os normais, um defeitinho de fábrica.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC