Uma pessoa que nasceu para servir. Assim se autodefine o professor aposentado Silvio de Oliveira, 78 anos, sendo que mais da metade deles vividos dentro da Sociedade São Vicente de Paulo, entidade que desenvolve trabalhos filantrópicos.
O próprio professor brinca ao dizer que descobriu sua vocação quando aceitou trabalhar como garçom no restaurante da antiga estação ferroviária. Foram apenas 30 dias, mas Silvio jamais esqueceu essa época. “Foi uma das coisas mais gostosas que eu fiz na minha vida”, diz.
Dentro da sociedade, ele passou por todas as esferas hierárquicas e presidiu os mais diferentes conselhos instalados em Bauru. Já foi presidente do conselho central, do conselho metropolitano, da Creche Cruzada Pastores de Belém e da Vila Vicentina. Hoje, é presidente do conselho particular de Santa Terezinha, mas já procura um substituto. “Eu não quero administrar, quero servir”, diz ele.
Antes de se transformar em um vicentino e dedicar a maior parte de seu tempo ao serviço voluntário, Silvio trabalhou no setor de fiscalização da Secretaria de Estado da Fazenda, foi jogador amador, repórter e professor. Aliás, a vocação para o magistério foi passada também aos filhos Silvio Tadeu e José Carlos. Ambos lecionam em faculdades de Bauru e da região. A filha Ana Silvia trabalha na área administrativa do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru.
Mesmo aos 78 anos e avô de seis meninas e um menino, Silvio não pára. Além do cargo que ocupa dentro da sociedade, ele desempenha também a função de ministro da Eucaristia na Catedral do Divino Espírito Santo e ainda mantém programas religiosos em duas emissoras de rádio.
Viúvo e pai de três filhos, o corintiano Silvio de Oliveira relembra nesta entrevista concedida ao Jornal da Cidade sua trajetória desde que chegou a Bauru, vindo de Lençóis Paulista, até os dias atuais. Por causa dos inúmeros e importantes serviços prestados na cidade, foi homenageado com o título de “cidadão bauruense” em dezembro de 1988. Leia a seguir, a entrevista.
Jornal da Cidade - O senhor nasceu em Bauru?
Silvio de Oliveira - Não. Eu nasci em Lençóis Paulista. Vim para Bauru com 18 anos. Como era moço, vim atrás de serviço e estou aqui há 60 anos.
JC - E foi fácil conseguir emprego?
Silvio - Eu tinha feito um concurso para um emprego no setor de fiscalização da Secretaria de Estado da Fazenda e estava esperando para ser chamado para uma vaga em Bauru. Foi por essa razão que eu vim para cá. Fui chamado quando fazia um mês que eu estava aqui. Permaneci na secretaria por 36 anos.
JC - Antes disso, o senhor trabalhou em algum outro lugar?
Silvio - Enquanto eu aguardava ser chamado pela secretaria, eu trabalhei como garçom no restaurante da estação ferroviária. Naquela época, a estação era muito movimentada. Havia trem de passageiros que saía de Bauru e ia para São Paulo e vice-versa. Tinha linha também para Panorama (SP), Corumbá (MS) e outros lugares. O movimento era maravilhoso. E a estação tinha um restaurante, que era do ‘seu’ Edgar Bicudo, pai da dona Olga Bicudo (presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Bauru). Como eu precisava fazer alguma coisa, não podia ficar parado, fui trabalhar lá como garçom. Foi uma das coisas mais gostosas que eu fiz na minha vida.
JC - É verdade que o senhor chegou inclusive a trabalhar em jornal?
Silvio - Quando parei de jogar futebol na várzea passei a escrever sobre esportes para os jornais Folha do Povo e Correio da Noroeste. Isso durou uns três ou quatro anos. E uma das reportagens que eu fiz fora do futebol, que mais me marcou, foi uma entrevista com o então presidente Jânio Quadros, em uma passagem dele por Bauru.
JC - E dentro do esporte, teve alguma reportagem que o marcou?
Silvio - Quando o Pelé foi campeão do mundo com a Seleção em 1958, eu participava da Associação dos Cronistas Esportivos. Então, decidimos fazer uma homenagem para ele na nossa sede aqui em Bauru. No momento em que eu fui entrevistá-lo, o fotógrafo chegou e na hora que ele ia fazer a foto o Friedenreich (ex-jogador do Flamengo, Santos e Atlético-MG) veio e colocou as mãos nas minhas costas e na do Pelé. Então, eu costumo dizer que na foto estão os três maiores jogadores do Brasil, Friedenreich, Pelé e Silvio de Oliveira (risos). Essa foto, inclusive, já foi publicada no Bauru Ilustrada do Jornal da Cidade. Até o Pelé aparecer, só se falava em Friedenreich. Ele foi destronado pelo Pelé. O nome dele praticamente sumiu da mídia. E ele era muito ciumento. Então, onde o Pelé ia, ele ia atrás.
JC - Teve alguma outra passagem curiosa na sua carreira de cronista esportivo?
Silvio - Teve uma vez, eu estava acompanhando um jogo do futebol amador no campo do Noroeste ao lado do locutor Paulo Milton, da antiga G8 Bauru Rádio Clube, atual Auri Verde. Quando terminou o primeiro tempo, sem eu esperar, o locutor me passou o microfone para comentar a partida. Eu nunca havia falado em um microfone. Minhas pernas tremiam sem parar.
JC - O que o senhor fez depois que deixou a carreira de repórter?
Silvio - Eu comecei a estudar sem parar. Porque, até então, eu não havia completado nem o ginásio (primeiro grau). Fui até o fim, depois fiz um curso técnico em contabilidade na escola Guedes de Azevedo. Comecei a lecionar na mesma escola. Nessa ocasião, já estava fazendo o curso de letras na Fafil (Faculdade de Filosofia, atual (USC). Fui convidado a lecionar na Faculdade de Economia, na ITE (Instituição Toledo de Ensino). Acabei fazendo ainda um curso de ciências econômicas.
JC - O senhor foi professor por quanto tempo?
Silvio - Lecionei na ITE durante 25 anos, sempre na área de contabilidade. E ainda trabalhei outros cinco anos na escola Guedes de Azevedo, como professor de português.
JC - O que achou da experiência?
Silvio - Para mim, foi algo extraordinário. A família aumenta, porque em cada aluno a gente tem um filho, um irmão. Tive passagens maravilhosas fora de Bauru. Uma vez, eu estava indo para Fortaleza. Embarquei em São Paulo. Entrei no avião, sentei e logo depois veio uma moça e perguntou: “O senhor não é o professor Sílvio?” Outra vez, eu estava no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, com minha esposa e meus filhos, quando alguém gritou “professor”. Eu pensei: “Não é possível que seja comigo”. Um lugar tão distante e dentro de um estádio tão grande. Aí eu vi uma pessoa que vinha andando e acenou com a mão. Eu parei, fui ao encontro dela e vi que era uma ex-aluna de Bauru que havia sido transferida para Belo Horizonte e me reconheceu no estádio. É gostoso demais.
JC - O que o senhor acha da educação nos dias de hoje?
Silvio - Olha, hoje eu tenho a impressão que está muito difícil de lecionar. Eu sempre me dei muito bem com meus alunos. Uma vez eu precisei me ausentar da sala da aula por um tempo. Eu estava com 70 alunos. Dei uma tarefa para eles e falei que iria sair e só voltaria no fim da segunda aula. Quando voltei, só tinham dois alunos fora da sala. O demais estavam todos trabalhando. Hoje, você não consegue isso de jeito nenhum.
JC - Quando o senhor parou de lecionar e por que parou?
Silvio - Eu parei em 1986, porque eu já estava com 25 anos de magistério. Antes, em 1982, eu já havia me aposentado pela Secretaria da Fazenda. Nessa ocasião, eu já estava militando de uma maneira bastante acentuada dentro da Sociedade São Vicente de Paulo. Eu achei então que devia parar de lecionar para me dedicar mais ao serviço voluntário.
JC - Quando o senhor entrou para a sociedade?
Silvio - Eu entrei em 1966, meio por acaso. Eu jogava no time do Ordem e Progresso, da Vila Falcão. Um dia, o técnico da equipe perguntou se eu não queria ser vicentino. Já naquela época, eu gostava do trabalho que eles faziam e decidi assistir a uma reunião. Gostei e estou lá até hoje. Eu acho que uma das melhores coisas do mundo é poder ajudar o próximo e na sociedade a gente faz isso sempre. Eu costumo dizer que o maior presente que Deus me deu foi ter me colocado na Sociedade São Vicente de Paulo. Enquanto Deus me der força, eu vou querer servir.
JC - Que tipo de trabalho a sociedade faz?
Silvio - O trabalho que fazemos é direcionado para as famílias carentes da periferia. Elas recebem alimentos, remédios, material escolar. Os voluntários cuidam dos doentes, ajudam na internação, se for o caso. Já aconteceu de um casal de voluntários acordar de madrugada para ficar na fila do posto de saúde para guardar lugar para um casal que estava doente e não podia ficar muito tempo em pé. Hoje, somos cerca de 600 vicentinos.
JC - Quais os cargos que o senhor já ocupou desde que se tornou um vicentino?
Silvio - A Sociedade tem seu conselho internacional em Paris. Cada um dos 138 países onde ela está implantada têm um conselho nacional. O conselho do Brasil fica no Rio de Janeiro. Abaixo do conselho nacional existem os conselhos metropolitanos. No Brasil, nós temos 31. Um deles em Bauru, que eu ajudei a instalar. O conselho de Bauru supervisiona todo o Oeste do Estado e o Mato Grosso do Sul.
Abaixo tem o conselho central, que supervisiona 15 cidades da região. Fui presidente deste conselho durante dez anos. Também administrei a Creche Cruzada Pastores de Belém e a Vila Vicentina por duas vezes. Além disso, presidi o conselho metropolitano. Hoje, sou presidente do conselho particular de Santa Terezinha, que é subordinado ao conselho central.
JC - Quando não está envolvido com o trabalho voluntário, o que o senhor faz?
Silvio - Eu gosto muito de ler e escrever. A Catedral (do Divino Espírito Santo) tem um informativo mensal e eu escrevo uma coluna sobre vocações. Quanto a leitura, minha preferência é por temas religiosos, mas também gosto de Machado de Assis e José de Alencar, entre outros escritores brasileiros. Embora não conheça uma nota musical, eu gosto de ouvir música clássica. Às vezes, chego em casa cansado, coloco o disco, deito um pouco e às vezes não dá nem tempo do disco tocar inteiro e eu já estou dormindo.
JC - Além de escrever para o informativo, o senhor ainda trabalha como ministro da Eucaristia na Catedral?
Silvio - Eu tenho quase 30 anos como ministro da Catedral. Quando o padre ou diácono não estão presentes, é o ministro quem faz a celebração da missa, que distribui a comunhão, que ajuda nos trabalhos da igreja.
JC - No informativo o senhor escreve sempre sobre vocação, dá para afirmar que a do senhor foi descoberta quando aceitou o convite do técnico de futebol para ser um vicentino?
Silvio - Com certeza. Porque desde o início sempre gostei de servir. Foi assim quando aceitei trabalhar como garçom. A Sociedade São Vicente de Paulo é exatamente isso. Enquanto eu puder servir as pessoas, vou fazer isso com a maior satisfação.