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Campanha bilionária


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Perto de 20 bilhões de reais é a estimativa de gastos da campanha eleitoral que está se iniciando, fora os 880 milhões de financiamento público. Como são 18.859 candidatos, o gasto médio por candidato é de um milhão e cinqüenta mil reais e corresponde a cerca de 160 reais por eleitor. Mas há os que ainda extrapolam, como um candidato a deputado estadual de Mato Grosso que pretende gastar 800 milhões, isso mesmo, oitocentos milhões de reais. Como é do PV talvez fosse melhor transformar em dólar, porque em verdinhas daria um pouco menos da metade. Outros dois, também candidatos a deputados estaduais do Amazonas, pretendem gastar 500 milhões de reais cada um. É muito mais que os R$ 89 milhões de previsão da campanha do Lula e R$ 85 milhões do Alckmin.

Agora vem a pergunta: o que leva um candidato a se dispor a gastar tanto para ser um deputado ou senador? Pelo salário, evidentemente não é, porque em quatro anos poderia receber um salário bruto entre um milhão e duzentos mil a um milhão e oitocentos mil. Pela ambição ou vaidade do poder também parece pouco provável, porque se fosse seria um caso doentio, uma vez que o que o cargo proporciona nesse sentido não vale tanto gasto. Provavelmente nessa disposição de gastar somas exageradas esteja a causa do aparecimento dos mensaleiros e sanguessugas. As despesas, então, passariam a ser investimentos, isto é, aplicação de dinheiro para ter um retorno compensador. O que se gastaria na campanha retornaria em forma de venda de votos para aprovar propostas do governo e participação em ganhos de superfaturamento em licitações de órgãos públicos e de empresas estatais.

Outra pergunta que ocorre é: num país onde governo federal, governos estaduais e prefeituras municipais vivem numa pendura dos diabos, onde falta dinheiro para tudo, o que justifica tanto gasto para eleger os governantes? É inquestionável que para ser democrático o governo tem que ser eleito pelo povo e que isso tem um custo, mas essa gastança não está desviando recursos daquilo que é essencial para o mínimo de uma vida digna dentro da democracia? Como se pode viver com decência com as pessoas sendo assaltadas, as casas sendo invadidas por ladrões, as pessoas morrendo em filas de hospitais públicos e as crianças trocando as escolas pelas ruas? Se não há dinheiro para essas coisas, como surge fácil para pagar propaganda política? Qual é a fórmula milagrosa que faz com que os partidos que dizem que não sabem como pagar as dívidas contraídas, agora já fazem previsão de gastar milhões na campanha? Alguém pode acreditar em limpeza moral e ética em tudo isso?

O pior da história é que todo esse dinheiro é gasto para termos que ficar ouvindo as mesmas promessas bobas de outras eleições. Todos falam em educação, saúde, emprego e segurança, como se tudo o que não fizeram, agora possa ser feito. Já estamos cansados de ver a administração pública andar a reboque. Só toma iniciativa e encontra recursos depois que a imprensa critica ou que acontece o pior. Vejam o caso dos presídios. Para colocar bloqueador de celular nas penitenciárias, que custava alguns milhares de reais, não havia dinheiro e não foram colocados porque as operadoras de telefonia não concordaram em pagar a conta. Como é que agora estão achando milhões para reformar as penitenciárias que foram destruídas pelos motins? Todos falam de ‘suas propostas’ mas nenhum apresenta um plano estruturado, formalizado, discriminando cada ação de governo com os recursos a serem aplicados e as fontes de onde sairão. Tudo é conversa mole com apenas uma certeza: a corrupção continuará e os impostos aumentarão.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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