A função da geladeira é refrigerar, mas quem não se lembra de que antes da popularização das secadoras de roupas a grade protetora do motor era usada para este fim? Em tempos de uso racional de energia, o calor liberado pelo motor pode – e pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru provaram que é possível – ser usada para outros objetivos. Um deles é o aquecimento de água.
Sem custo algum, a geladeira também pode aquecer água para o uso doméstico. Para isso, basta um aparelho, denominado armazenador de calor, desenvolvido pelo Grupo Energia e Meio Ambiente da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unesp. O armazenador de calor tem a função de guardar e utilizar energia térmica que normalmente é desperdiçada no ambiente. Além de evitar a agressão ambiental, o sistema possibilita a racionalização da energia elétrica.
Ainda em fase de teste, o equipamento é um tanque plástico, com um metro e 20 de altura e 30 centímetros de diâmetro, que fica acoplado ao condensador da geladeira. O aparelho tem capacidade para armazenar 86 litros de água, que chega até ele por um tubo ligado à rede de abastecimento da residência. A partir do tubo, a água segue até o trocador de calor, que fica acoplado à saída de gás quente do compressor da geladeira.
É no trocador de calor que a água fria absorve o calor do gás quente da geladeira. A água aquecida tem densidade menor e, por isso, se desloca para a parte superior do tanque - sem nenhum acessório de separação. A água aquecida pode, então, ser canalizada para uma torneira ou chuveiro. O sistema permite obter água quente com a reutilização da energia – ela chega à torneira a 42 graus.
“O objetivo é aproveitar uma energia que está sendo dissipada para o meio. Em vez de jogar fora, aproveitamos para aquecê-la e usá-la dentro de casa. O melhor de tudo isso é que não haverá nenhum custo adicional”, ressalta Paulo Henrique Ferraz do Amaral Filho, 26 anos, que participou da pesquisa como mestrando.
De acordo com ele, o desempenho do armazenador atingiu as expectativas do estudo. O aparelho apresentou capacidade de gerar e armazenar sete litros de água aquecida por hora. O resultado foi uma economia de 46 quilowatts ao mês. A título de comparação, uma família de dois adultos e uma criança, que mora em apartamento, tomada como exemplo pelo JC, consome, em média, 150 quilowatts ao mês.
“É uma maneira de racionalizar energia. Já imaginou a economia que uma dona de casa vai ter pelo fato de não estar desperdiçando o calor que vem da geladeira? Será enorme e o custo, zero”, diz o professor Alcides Padilha, um dos coordenadores da pesquisa.
O diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado, Paulo Grava, avalia o sistema como benéfico não só ao consumidor, mas também ao meio ambiente. De acordo com ele, o sistema favorece o aproveitamento de uma energia que não é desperdiçada apenas com a geladeira, mas também com as máquinas de lavar que, segundo ele, produzem grande quantidade de energia térmica.
“Tudo isso vai trazer o benefício da preservação do meio ambiente e a economia financeira para o morador, que terá a conta de energia reduzida. Em termos de conservação de energia, é uma proposta muito viável”, considera.
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Condicionador de ar
O próximo passo dos pesquisadores da Unesp que desenvolveram o armazenador de calor será a aplicação do mesmo sistema em refrigeradores de ar. Segundo o professor Alcides Padilha, que encabeçou a pesquisa, o volume de água aquecido será bem maior que a capacidade da geladeira, que produz menos calor.
Ele afirma que será possível obter cem litros de água quente com o refrigerador ligado durante 24h. “A continuidade dessa pesquisa coloca a Unesp numa posição de destaque. Estamos mostrando à sociedade que o dinheiro aplicado na universidade está dando retorno. O significado disso é uma agregação de conhecimento num projeto em prol da população”, diz Padilha.
O engenheiro mecânico Paulo Henrique Ferraz do Amaral Filho, que participou do grupo de estudos como mestrando, também acredita que o projeto pode ser ampliado e aprimorado. “A continuidade do experimento é necessária porque se trata de um trabalho que pode ser muito útil às pessoas e à natureza, se não agora, num futuro não muito distante”, acrescenta.