Um vidro de cola, linha e cacos de vidro em pedaços pequenos. Separadamente, esses objetos são inofensivos, mas juntos e aplicados em uma pipa, podem significar a morte de uma pessoa inocente. A linha com cerol secciona artérias e veias da pessoa atingida, provocando forte hemorragia e com risco de matar a vítima em apenas três minutos.
Para prevenir acidentes desse tipo, a Polícia Militar (PM) realizou ontem uma simulação de acidente com linha envolvida em cerol, no Calçadão da Batista de Carvalho. A simulação só não atraiu um público maior porque chovia forte na hora do evento.
A chuva também obrigou os organizadores a sair a Praça Rui Barbosa, local inicialmente marcado para a simulação. Mesmo assim, foi possível mostrar os danos que a linha com cerol podem causar.
Um boneco foi montado sobre uma moto para demonstrar como uma linha com cerol pode seccionar o pescoço de um motociclista, principal vítima desse tipo de acidente. O resultado é que o boneco foi degolado.
O efeito assustador é verdadeiro e já fez muitas vítimas pelo País, afirma o capitão do grupamento aéreo da PM em Bauru, capitão Sílvio Luiz Frank. “Em São Paulo, quando eu trabalhava no Águia Resgate, um rapaz foi degolado por uma linha com cerol. Não houve tempo para socorro. Ele perdeu todo o sangue.”
Mesmo na rua, as pessoas devem ficar atentas, pois o acidente também pode acontecer com quem esta a pé, enfatiza o comandante. “Em São Paulo houve outro caso que eu me lembro bem. Uma mulher caminhava pela calçada, perto de um menino que soltava pipa. De repente, a linha com cerol enroscou em um caminhão, que foi puxando-a. A linha seccionou o pescoço da mulher, que faleceu”, lembra o capitão.
Para os tripulantes de uma aeronave como o Águia, que fica com a porta aberta, a linha com cerol também é problema. “Em São Paulo, um capitão sofreu um acidente sério com um dos dedos. A sorte dele é que a linha chegou ao osso, mas não amputou o dedo.”
No ano passado, mais precisamente no dia do aniversário de Bauru, inúmeras crianças foram soltar pipas no Parque Vitória Régia. O céu ficou colorido e a população aplaudiu. No mesmo dia e local, a Polícia Militar apreendeu 92 latinhas contendo linha de cerol. Isso significa que muitas pessoas presentes correram risco de vida, sem saber do perigo.
400 chamadas
O comandante da 1ª Cia da PM, capitão Jorge Duarte Miguel, lembra que o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de Bauru registrou, de janeiro até ontem, 436 chamadas denunciando o uso da linha com cerol. “Na totalidade foram confirmados os casos. A denúncia é importante para que a PM apreenda o material.”
Além da apreensão, a linha com cerol gera implicações legais, explica o capitão. “Constatando o fato, o material é apreendido. A criança e os pais são levados à delegacia de polícia. Há implicações no Código Penal, no Estatuto da Criança e Adolescente e na Lei 12.192 de 6 de janeiro deste ano, que prevê multa de aproximadamente R$ 70,00.”
A postura dos pais é fator que educa ou desinforma o menor, na opinião do capitão. “É preciso coibir essa prática”, destaca o capitão.
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Tragédia
Segundo o comandante da 1ª Cia da PM, capitão Jorge Duarte Miguel, os cortes provocados pela linha com cerol, geralmente na região do pescoço, podem seccionar artérias e veias principais ou importantes do corpo, não dando chance, sequer, para o socorro. “A hemorragia é muito grave. A vítima tem de dois a três minutos para receber atendimento médico.”
A vítima perde muito sangue num espaço de tempo curto. “Ela entra em choque e morre por insuficiência de sangue no corpo”, detalha o capitão. De acordo com ele, em Bauru já foram registradas vítimas fatais desses casos.
Outra preocupação com a pipa, segundo o comandante da 1ª Cia, é o atropelamento. “A criança foca sua atenção na pipa e não presta a devida atenção ao fluxo de veículos, e acaba sendo atropelada.”
Para os motociclistas, uma antena instalada na parte da frente do veículo pode evitar acidentes com linha de cerol. “Não configura alteração nas características do veículo. A PM não multa quem usa, é uma prática viável e pode ser utilizada também nas bicicletas”, sugere.
Ele lembra que são paliativos, já que a linha sem cerol também tem poder de corte, embora bem menos potente. “O ideal é que as pessoas não soltassem pipa com linha com cerol.”