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Crime organizado e a crise do homem


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Já afirmava Sócrates em 470 a.C: “A virtude nasce da alma e não do corpo”. Sócrates entende alma como psique ou “conhecimento”, “intimidade”, o “eu puro”, o mais íntimo do eu, que pela educação e pelo ato da reflexão deve ser cultivada, potencializada a ponto de se refletir no corpo como virtudes que orientarão a vida do indivíduo na sociedade. A felicidade e a realização do homem se dão quando ele se torna dono de si, e por suas virtudes e valores, consegue fazer uma leitura clara de quem ele é e qual o papel que desempenha no mundo. Por isto, toda educação grega sempre se preocupou em buscar a formação integral do ser humano, mergulhando em sua alma e trazendo à tona as virtudes e os valores pessoais. Assim, quando o grego fala do político, ele fala de si próprio e de seu dever pessoal de legislador da cidade; quando fala de justiça entende seu dever pessoal de manter o Bem; quando pensa ética sabe que antes de tudo ela é um imperativo pessoal e intransferível.

Compatível com esse mesmo raciocínio, Kant diz: “Aja de tal maneira que o motivo que o leva a agir se torne uma lei universal”. Qual imperativo pessoal seria esse que deve me orientar ao ponto de se tornar exemplo a outros? O valor e o dever. Para Kant, o valor pessoal que nasce da consciência deve se expressar pelo dever de agir para o bem comum e a felicidade da coletividade. O dever é que deve orientar desejos e atos, pois além de ser vontade da coletividade é, acima de tudo, um valor pessoal que tem sentido para mim. Por isto, cumpro-o porque sei que ele é bom, independente da lei me obrigar. Poe este imperativo moral, segundo Kant, é que mesmo hoje, se a lei for anulada, continuarei ainda a fazer o bem, pois, a lei antes de tudo é um valor pessoal que nasce de minha liberdade de consciência.

Segundo Kant, é agindo pelo dever que nos tornamos exemplo a ser seguido pelos outros, universalizando o Bem. Tanto o modelo grego de virtude como o imperativo do valor e dever kantiano, devem ser potencializados e atualizados na educação, seja ela familiar, escolar, ou social. Difícil é enxergar um bom exemplo quando olhamos o cenário político, educacional e familiar em nosso País. O que nos falta é o “homem virtuoso”, fruto de uma verdadeira educação conscientizadora e não conteudista, que priorize a psique e não a forma, que gere a virtude pela problematização do mundo e não pela alienação. Sabemos que onde falta sentido, sobra em afetos não trabalhados. Matéria de intensidades, facilmente manipuláveis, que podem ser domesticadas por uma ideologia que ofereça status, poder e realização, mesmo que a ideologia seja podre em suas bases. Hoje combatemos o crime organizado, mas saibamos que ele é produto não é causa. O crime organizado encontrou uma cadeia de intensidades que lhe deu forma e o tornou possível, através da pobreza, da inoperância do Estado até a falta de sentido e a perda de si de uma sociedade hedonista que valoriza o ter pelo ser, que converte o homem em um ser unidimensional, hostilizado em seus afetos e domesticado em suas vontades. Homens despotencializados no pensamento que por falta de referenciais, acabam expressando seus afetos em partículas enlouquecidas de afeto, que beira o irracionalismo.

A violência é o câncer no seio da sociedade, incomoda e se ramifica em todas as direções. A causa da ferida é o que Sócrates e Kant definiriam como o “homem desumanizado”, sem virtude, estranho a si mesmo. O sintoma do crime organizado nasce da mesma ferida da corrupção, da falta de educação, da miséria, do consumismo, da depressão, do fanatismo religioso. A diferença é que estes outros sintomas são silenciosos e até mesmo pacifistas, porém todos nascem da mesma ferida da alma em crise. Infelizmente o homem contemporâneo é um ser externo, vê o que todos vêem e sonha o que o paradigma do capital ordena. Um homem incapaz de ver a coisa pública como parte de si, um indivíduo alienado que se tornou estranho a si mesmo capaz de nomear o mundo, mas incapaz de lidar com seus próprios afetos, virtudes e deveres.

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Teoria do Conhecimento da Universidade do Sagrado Coração - e-mail: fsantos@usc.br

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