Tribuna do Leitor

Nivelamento por baixo


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Em matéria publicada no dia 31/7 foi noticiado que uma ONG pretende promover a reforma do idioma português na louvável busca de alternativas para a “democratização da educação e a cultura no Brasil”. Todavia, sem pretender polemizar e com o devido respeito, a proposta de eliminar letras do alfabeto, alterar pronúncia e outros artifícios mirabolantes sob o pretexto de facilitar o aprendizado soa como um incentivo à indolência e ao nivelamento por baixo e, caso implementada, arruinará a nossa esplêndida língua portuguesa, causará imensa confusão no país e, no final das contas, não fará a menor diferença na efetiva alfabetização.

Minha educação primária, como a da maioria de minha geração (tenho 41 anos), foi realizada exclusivamente em escola pública (particularmente numa cidadezinha minúscula). E usando aquela cartilha clássica (pelo que sei abolida atualmente, sabe-se lá por obra de qual educador “iluminado”), Sentado em carteiras antigas, daquelas pregadas ao chão, às vezes dividindo-a com um colega, em classes com lousa pintada de verde, sem ventilador ou ar condicionado. Sem cantina, sem merenda farta.

Sem “progressão continuada”. Sem computador e Internet. Sem canetinhas coloridas, mochilas transadas e outros apetrechos inúteis. Mas, por outro lado, sem desculpas, sem eufemismos, com disciplina, tarefas rotineiras e utilizando os combatidos “H” e “Ç”, o trema e pronunciando “éle” (letra “L”). Todo esse cenário não traumatizou a mim ou aos meus colegas nem tampouco foi empecilho para que aos 8 anos de idade eu já pudesse ler e escrever adequadamente. Isso porque existiam grandes mestres para ensinar, que tinham riscado a palavra comodismo de seu dicionário e cuja dedicação e competência superavam as condições adversas e transformavam a alfabetização num prazer, numa porta aberta ao conhecimento, à compreensão das coisas e do mundo e à civilização.

Dessa forma, fica a minha sugestão para que os esforços do grupo de acadêmicos se voltem para a exigência de maior qualidade no ensino. Para a melhor formação e aprimoramento de professores. Para salários dignos (inclusive para os aposentados). Para uma seleção mais rigorosa (qualificação para ensinar não se adquire simplesmente fazendo uma prova objetiva de um concurso) e para a existência de respeito e disciplina no ambiente escolar (que faltam hoje em dia). E, sobretudo, para que incentivem (não obriguem) os alunos a ler.

Procurem aquelas professoras aposentadas, das quais todos se lembram com carinho e gratidão, e peçam-lhes a sua receita da alfabetização com sucesso de muitas gerações do passado. Garanto que as respostas seriam simples e não haveria a necessidade de propostas estapafúrdias. Deixem nossa língua portuguesa em paz. Atenciosamente.

Adriano Aparecido Bruno - bancário - RG 17.229.438

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