Um levantamento encomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que pelo menos 20% das mães jovens e adolescentes até 19 anos são reincidentes na gravidez. Falta de informação e de cuidados durante o ato sexual são apontados como alguns dos principais motivos para essa reincidência.
Em quase todos os casos, as mães acabam sacrificando de maneira muito precoce a vida escolar e profissional para cuidar dos filhos.
Geralmente, a segunda gravidez, a exemplo da primeira, acontece por acaso, sem nenhum planejamento. O pensamento comum de que “isso nunca vai acontecer comigo” predomina e as garotas deixam de tomar os cuidados necessários durante a relação sexual e engravidam uma, duas e até três vezes antes de completar 19 anos.
Algumas dessas meninas chegam a admitir que a primeira gravidez foi um erro. Mesmo assim, voltam a repeti-lo outras vezes. Em Bauru, não existe estatística sobre a reincidência da gravidez entre jovens e adolescentes. Mas uma rápida consulta aos postos de saúde é suficiente para notar que esses casos são comuns na cidade, principalmente nos bairros mais carentes.
É o caso de Andréia Tenório dos Santos, 21 anos, mãe de quatro filhos e moradora no Jardim Chapadão. Ela engravidou do primeiro filho quando tinha 13 anos. Na época, cursava a 7.ª série. Teve de interromper os estudos.
Voltou mais tarde, mas precisou abandonar novamente a escola por causa de outra gravidez. Andréia parou quando faltavam dois meses para completar a 8ª série e não retornou mais.
Quando ficou sabendo que estava grávida de seu primeiro filho, Marcos Vinícius, 7 anos, ela conta que levou um choque. Sobre os cuidados que deveria ter tomado durante a relação sexual com o namorado, Andréia fala que “sabia o que todo mundo sabe” e reconhece que falhou na prevenção. “Eu não imaginava que pudesse acontecer comigo”, comenta, referindo-se à gravidez.
As conseqüências de uma gestação não-programada foi duramente sentida por Andréia. “Perdi minha liberdade. Eu não podia mais sair. Tinha de ficar cuidando do meu filho. Era muita responsabilidade.”
Ela lembra que no começo o namorado, na época com 16 anos, não queria assumir a paternidade. Ele só reconheceu isso quando a criança tinha 1 ano de idade. Passaram a morar juntos e na seqüência vieram mais dois filhos: Maria Eduarda, 5 anos, e Adriele, 4 anos. Há dois anos, voltaram a se separar. Hoje, Andréia está com outra pessoa, com quem teve mais um filho, Thawa, de apenas 3 meses.
A exceção do caçula, todos os outros filhos estão na escola. “Quero que eles estudem bastante para não cometer o mesmo erro que eu. Primeiro, eles precisam ter uma profissão para depois casar.”
Filho planejado
Janaína da Conceição, 17 anos, também moradora no Jardim Chapadão, segue o mesmo caminho de Andréia. Ela já tem um filho e está grávida do segundo. Mas ao contrário do que ocorre normalmente, o primogênito de Janaína não chegou por obra do acaso.
Com 14 anos, ela já queria sair de casa. No entanto, a mãe impôs duas condições para que isso acontecesse. “Ela me falou que eu só sairia de lá se fosse para casar ou se estivesse grávida.” Como o namorado, na época com 19 anos, não queria nem saber de casar, restou a segunda opção. Segundo ela, a decisão pelo filho teria sido em comum acordo. “Tentamos por três meses e aí eu engravidei”, conta ela.
Livre para ter seu próprio canto, Janaína ganhou uma menina a quem deu o nome de Nicole, hoje com 3 anos. Mas ela não contava com o imprevisto: uma nova gravidez.
Segundo ela, depois que a filha nasceu, passou a tomar pílulas anticoncepcionais. Mas uma falha fez com que ela engravidasse novamente. Janaína conta que teve de substituir o comprimido que estava acostumada a usar por outro.
No entanto, não sabia que precisava de um intervalo de sete dias sem relações sexuais, até que a nova pílula fizesse efeito. Ela não obedeceu esse intervalo e engravidou. Está hoje no sexto mês de gestação.
O imprevisto fez Janaína adiar sua volta à escola. Falta apenas um ano para ela completar o ensino médio. “Quero voltar assim que eu ganhar o bebê.”
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Dedicação exclusiva
Thracy Helene Bicaleto, 17 anos, costumava sair com os amigos todos os fins de semana. Ficar em casa, nem pensar. Mas essa liberdade durou muito pouco. “Agora, muita coisa mudou. Fiquei sem tempo para mim. Tenho que dar atenção ao meu filho.”
Desde que o pequeno Julio Cesar, 1 ano, nasceu, Thracy passa os fins de semana em casa. “Meu tempo agora é só para ele.” As mudanças não ficaram apenas no campo da diversão. Thracy também teve de abandonar a escola precocemente. Ela faz planos para retomar os estudos, mas ainda vai levar um tempinho.
Cinco meses após o nascimento do filho, ela decidiu apostar na sorte e abriu mão dos métodos anticoncepcionais. A aposta foi arriscada demais e a natureza venceu. Thracy está prestes a ter seu segundo filho.
“Se eu pudesse voltar no tempo, mudaria algumas coisas. Eu pararia na primeira gravidez. Dois é demais”, afirma. Apesar de saber dos riscos que corria ao abrir mão da prevenção, Thracy imaginava “que não ia acontecer”. Ela não acreditava nem mesmo depois que engravidou de Julio Cesar. “Eu achava que as coisas não iriam se repetir. Mas foi mais rápido do que eu imaginava”, admite. “A partir de agora, cuidado vai ser meu lema.”