Certa vez, perguntaram a Siddharta Gautama, o Buda, se Deus realmente existia. Coerente com sua filosofia de vida, Buda respondeu que não era contra os que acreditavam na existência de um “Deus Criador” e também não era contra aqueles que não acreditavam em sua existência. Não discordava nem de um, nem de outro, só se preocupava em se curar, só empregava seus esforços no caminho que leva à eliminação do sofrimento.
Muitas vezes, buscamos no sobrenatural a resposta para problemas que dizem respeito à nossa própria natureza humana. O ser humano possui a tendência preguiçosa de pedir a Deus a “cura” de suas enfermidades ao invés de utilizar o dom divino da razão para encontrar o “remédio” necessário. Quando esperamos que as soluções caiam do céu, deixamos de nos conhecer melhor e de encontrar belíssimas respostas que estão simplesmente dentro de nós mesmos.
Podemos citar um exemplo muito simples de nosso cotidiano, uma das causas do sofrimento do homem do século 21, a chamada ansiedade. A ansiedade é a sensação que sentimos antes de saber as exatas proporções de um problema ou de uma situação que provavelmente surgirá. Eu não sei com certeza quais serão as alternativas que poderei escolher ou se terei diante do eminente problema alternativas realmente satisfatórias. Ao compreendermos o fenômeno da ansiedade encontramos a sua solução.
O ser humano elimina a ansiedade simplesmente encarando, enfrentando as situações. A ansiedade desaparece quando nos encontramos alertas no centro do esperado contexto e podemos nele interagir. Em outras palavras, eliminar a ansiedade é deixar de se pré-ocupar com uma situação ainda não conhecida, mas quando esta surgir encará-la de frente.
Quando elimino a ansiedade enfrentando um determinado problema, tenho obrigatoriamente que tomar uma atitude. Aqui podemos nos encontrar então em uma situação angustiante. Diferente da ansiedade, a angústia surge diante das escolhas que devo fazer. Justamente estou angustiado quando não sei exatamente qual decisão tomar. O remédio para a ansiedade é o mesmo para a angústia. Esta é eliminada a partir do momento que faço a minha escolha. Tanto a ansiedade como a angústia são eliminadas através da coragem. Afinal, se a ansiedade é o medo do surgimento de determinada situação, a angústia é o medo diante da escolha. É necessário que tenhamos em mente que podemos cometer erros, o que não devemos é ficar na situação ansiosa ou angustiante da omissão.
O medo de não sairmos satisfeitos é o grande mal que nos mantém ansiosos ou angustiados. Aqui nos defrontamos com um terceiro problema puramente humano: a frustração. Para superá-la é necessário que o ser humano se conscientize de que a frustração pertence obrigatoriamente à existência humana. Não existe pessoa humana totalmente satisfeita ou totalmente frustrada. Diante de qualquer situação sentiremos tanto frustração como satisfação. O problema é qual destas sensações terá o maior peso. O ser humano fica sempre mais frustrado ou mais satisfeito dependendo de suas escolhas e das experiências que vivenciará através delas. A frustração é uma experiência inevitável depois da escolha de uma alternativa. Afinal, depois da decisão sempre se deixa algumas para trás; em outras palavras, sempre se perde alguma coisa.
A frustração é amenizada quando a alternativa que escolho é muito satisfatória. Este grau intenso de satisfação faz com que deixemos de perceber o grau mínimo de frustração por não ter escolhido as outras alternativas. O importante é sempre aprender com as escolhas mais frustrantes que satisfatórias e, muitas vezes, ter a paciência de suportar pequenas frustrações para se alcançar uma situação melhor. Aliás, a maturidade consiste exatamente na capacidade de se impor pequenas frustrações para se ter longas compensações.
A ansiedade, a angústia e a frustração são problemas puramente humanos que podemos superar através do conhecimento de nossa natureza, das situações nas quais nos encontramos e através de nossas atitudes. Da mesma forma, a corrupção, a má distribuição de renda, o sistema educacional que possuímos, a ineficácia do sistema penitenciário, os políticos sem compromisso com o bem comum são todos problemas puramente humanos e devem ser resolvidos com nossas próprias forças.
O principal papel de Deus é o de provocador. Na verdade, Ele nos diz a cada um que possui uma consciência madura: “Eu dei a vocês o mundo e a liberdade. Foram vocês que criaram as cercas, as propriedades privadas, o dinheiro, o sistema capitalista, o Estado... Se vocês são capazes de criar tudo isso, também são capazes de aprender a utilizar tudo da melhor forma possível. Eu estou torcendo por vocês!”