Para um morador que reside em uma grande cidade, encontrar animais pela rua que não sejam cães ou gatos pode parecer incomum. Galinhas e cavalos são difíceis de ser achados. Vacas e bodes, improváveis. Javalis, impensáveis.
Isso para quem nunca andou pelas bairros de periferia de Bauru. Nas favelas da cidade, proliferam-se criações de animais e pequenas plantações, como hortas e pomares, e a cidade ganha um ar de campo em suas partes esquecidas.
Isto numa época em que Bauru torna-se um município mais e mais urbano. Segundo estimativas da Fundação Estadual Sistema de Análise de Dados (Seade), Bauru tinha, em 2005, 4.992 moradores habitando a zona rural. Os dados são referentes à uma população total aproximada de mais de 340 mil pessoas.
De 20 anos para cá, a população rural encolheu, tanto em termos absolutos quanto relativos. Em 1980, os bauruenses residentes no campo eram 5.860, enquanto a cidade tinha pouco mais de 180 mil habitantes. Em 1990, quando a população total do município estava em torno dos 250 mil moradores, 5.429 pessoas viviam no campo.
A queda pode levar questionamentos sobre a possibilidade do desaparecimento do rural. Para o economista José Eli da Veiga, a hipótese é precipitada. “É uma aberração pensar uma coisa dessas”, afirma. Para ele, a idéia de morte do rural não leva em conta os diversos momentos da história da humanidade.
“Durante milênios o rural foi predominante, mesmo quando existiam cidades. Apenas no final da Idade Média, na Europa, devido ao surgimento de novas formas de ocupação e processos de produção o urbano passou a predominar”, afirma.
O domínio do urbano não significa um desaparecimento do rural, mesmo nos espaços urbanos. “Isso depende das formas como as pessoas de um local relacionam-se com a natureza”, diz ele.
Partindo desse princípio, é possível questionar-se se a presença de atividades agropecuárias nas cidades representam formas de sobrevivência do rural no espaço urbano.
“Antes de defender de maneira enfática uma teses dessas, seria preciso realizar um estudo sério, para saber o tipo de ocupação que existia anteriormente no local”, acredita a geógrafa Línia Garrone, da Universidade do Sagrado Coração (USC).
“Será que o lugar já era ocupado por propriedades rurais, que posteriormente foram incorporadas ao espaço urbano? Ou então, seriam as criações de animais meras formas de sobrevivência encontradas pelas pessoas de um determinado local?”, questiona ela, quando indagada a respeito da presença de atividades agropecuárias em espaços urbanos.
Em meio a tantas indagações, o rural pode respirar livre em locais como o distrito de Tibiriçá, localizado a cerca de 18 quilômetros de Bauru.
Longe do agito e dos perigos dos grandes centros, os moradores do pequeno distrito de cerca de 3.000 habitantes passam por cima de problemas como o da falta de policiamento e dão-se ao luxo de desdenhar a vida na “Cidade sem limites”.
“Para que vou querer morar em Bauru se vivo no melhor lugar do mundo?”, indaga Wilson Hildebrando Martins, que tem 54 anos e tem uma multidão de afilhados na região do em que o bairro está localizado.
Sufocado no nas grandes cidades, o rural ainda mostra vigor. Numa época em que a tecnologia domina a vida das pessoas, coisas simples ajudam a reviver uma realidade que, muitas vezes, parece estar cada vez mais perdida no tempo.
Juarez da Silva Padilha, que tem 43 anos, 23 vividos em fazendas, tem um interesse especial na criação de animais no fundo de seu quintal. “Não sou capaz de acordar sem escutar a cantiga de um galo”, diz.