Mulher

Mulheres pesquisadoras

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Desde a Idade Média, as mulheres sempre produziram tecnologia, fosse no âmbito doméstico, como no preparo e conservação dos alimentos, fosse no manuseio de ervas e atendimento aos familiares doentes. A construção do conhecimento, contudo, sempre foi vista como atividade ligada ao universo dos homens. Mas este estereótipo exclusivamente masculino está sendo quebrado. Prova disto é o aumento da participação feminina nas áreas de ciência e pesquisa, tema do livro “Ciência, Tecnologia e Gênero: Desvelando o Feminino na Construção do Conhecimento”, lançado recentemente pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina, no Paraná.

Com base no banco de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a obra mostra que há pouco mais de uma década a participação das mulheres no meio científico brasileiro era de aproximadamente 30%. Em 2002, a atuação feminina saltou para 49,6%, o que corresponde a 34 mil bolsas concedidas a mulheres, em um contexto de 68 mil pesquisadores em todo o País. E, segundo alguns especialistas, a previsão é de que este cenário evolua ainda mais nos próximos anos, devido à predominância feminina em universidades, institutos de pesquisa e atuação delas como docentes.

Não há dúvidas da competência feminina no meio científico, mas, apesar dos avanços, as mulheres ainda enfrentam obstáculos e dificuldades na área de pesquisa, aponta a socióloga Lucy Woellner dos Santos, que organizou o livro em parceria com a psicóloga Doralice de Fátima Cargano e Elisa Yoshie Ichikawa, professora do departamento de administração da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Lucy explica que um dos principais motivos da segregação é o atual modelo masculino de organização da atividade científica, conectado aos valores de dominação e controle da natureza. Neste sentido, destaca, a maternidade constitui-se, na grande maioria dos casos, como uma das principais barreiras que as mulheres enfrentam na carreira científica.

“Elas estudam, se preparam e estão totalmente credenciadas a desenvolver uma atividade de pesquisa em igualdade de condições com os homens, mas em determinadas fases da vida, quando se casam e se tornam mães, muitas têm de optar por uma coisa ou outra”, diz.

A professora Elisa compartilha de opinião semelhante a de Lucy. De acordo com ela, a vida da mulher inserida na ciência é extremamente competitiva por que esta área requer, muitas vezes, dedicação exclusiva e incompatível com a maternidade. “Uma mulher cientista tem de fazer graduação, mestrado e doutorado. E isto tudo na fase mais fértil da vida”, diz.

“Muitas optam por adiar a maternidade porque os órgãos de fomento, os orientadores, as pesquisas, os prazos de conclusão de curso não têm previsão de uma licença-maternidade. O ‘sistema’ é assim”, complementa Elisa.

Ela observa, ainda, que as formas de avaliação de um cientista são baseadas na quantidade de publicações e pesquisas e, desta forma, é muito difícil tirar férias ou ter mais tempo para cuidar dos filhos.

A psicóloga Doralice ressalta que mesmo adiando ou sacrificando a maternidade, diferentemente dos homens, as mulheres cientistas precisam lidar com a multiplicidade de funções em sua vida. “Embora elas tenham melhorado muito sua condição no meio científico, continuam sendo mulheres, esposas, mães e donas de casa. Elas precisam se desdobrar para cumprir todos estes papéis.”

Diferenças sutis

A exemplo de outras carreiras, há muitas formas veladas de segregação no meio científico, aponta Lucy Woelher dos Santos. Especialmente nas áreas de ciência e tecnologia, destaca a socióloga, elas ainda têm dificuldades em assumir postos de direção. “As mulheres ainda não têm uma participação eqüitativa à dos homens. E essa discriminação acontece de várias maneiras: quando se dificulta o acesso a cargos ou quando se rotula determinadas áreas do conhecimento como masculinas ou femininas, por exemplo.”

De acordo com a psicóloga Doralice de Fátima Cargano, estas formas de discriminação entre homens e mulheres são sutis e foram construídas pela própria sociedade durante décadas. Ao educar meninos e meninas, explica a professora, os pais podem incutir, sem querer, valores que segregam. “Para as meninas são dadas bonecas e para o meninos, carrinhos e jogos mais complicados, muitas vezes estas diferenças começam na infância”, diz.

Elisa Yoshie Ichikawa concorda com a psicóloga e observa que este comportamento pode enfatizar as diferenças entre homens e mulheres. “Na idade escolar, a menina cresce achando que não é boa em matemática porque nunca foi estimulada a gostar dela. O menino, ao contrário, é estimulado a ‘construir’ e a gostar de tecnologia de ponta. Com isso é criada uma espécie de segregação territorial’ entre os sexos”, avalia.

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