O sociólogo alemão Max Weber - que não era propriamente um sociólogo, mas um genial teorizador da cultura e da história -distinguia duas éticas, a da responsabilidade e a da convicção. Weber diferencia uma ética com vistas a resultados e outra que respeita os valores. Quem faz política quer atingir fins sem se importar com os meios e muito menos com os valores. Estamos em fase de vale-tudo político, e o que prevalece é a interpretação literal da famosa frase de Tayllerand - “A política é a arte de vencer. Só conta o resultado. O único critério de excelência é a vitória. E se em outras circunstâncias da vida pode haver derrotas sublimes, mais nobres que as vitórias, no jogo da política, a única justificativa é fazer algo que leve ao sucesso”. Evidentemente Weber falava em dois tipos de ética, mas, ambas, voltadas para o bem comum, para a felicidade do coletivo. Caso contrário estaria defendendo princípios a-éticos. O filósofo Renato Janine Ribeiro comparava a ética dos políticos como um “oxímoro”, isto é, uma reunião de palavras contraditórias. Ex: estrondoso silêncio; valente covarde; político honesto.
Pois bem. O PT, por suas lideranças mais expressivas, desde a sua fundação sustentava com inexcedível vigor e vibração que não admitia separação entre as duas éticas. A pregação do partido era de que esta era uma cláusula pétrea do partido, um princípio inarredável e inegociável. Ou seja, para o antigo PT, nenhum fim seria legítimo se para atingi-lo os meios não fossem legítimos. Pois não durou muito o afrouxamento ético-político do partido que hoje disputa como favorito a reeleição presidencial. O PT sucumbiu à maré montante destes nossos tempos ditos pós-modernos em que todas as referências se diluíram, em que todas as convicções se dilaceraram. Enfim, tempos em que todos cada vez mais se parecem com todos. O presidente Lula, na famosa entrevista em Paris disse que o PT havia feito “apenas” o que “sistematicamente” se faz na política brasileira. Isto é, o uso do caixa dois nas campanhas políticas. Um fato corriqueiro, que não merece punição tão drástica quanto a cassação, mas sim uma legislação mais moderna que proteja os políticos dessa “tentação”. Depois da fala presidencial não surpreende a constatação de que se banalizaram as ações criminosas no Congresso Nacional. Depois dos mensalões surgiu o caso dos sanguessugas e, sic transit gloria mundi (assim passa a glória do mundo), ou melhor, dos corruptos. Há parlamentares dizendo que, a única forma de dar uma ambulância para socorrer o povo sofrido da sua base eleitoral, era entrar no esquemão das propinas e superfaturamentos. Então, “que assim seja”. Amém. Ajudamos o povo e ainda nos sobra algum. Melhor que isso, impossível. E ainda reclamam...
Até os assassinos têm uma curiosa ética que pune o estupro. Quem matou dez ou vinte será tratado com respeito no presídio, mas, o estuprador não sobrevive em uma cela coletiva. Em política parece que há criminosos de todos os gêneros, sem que um perturbe o outro. Num palanque pode se reunir tudo de tudo e para todos os gostos: desde marxistas ateus a fundamentalistas bíblicos; de ultraliberais a intervencionistas; de estatizantes a privatizantes; de defensores do estado mínimo a defensores do Estado máximo, e isso para ficar apenas no campo das idéias. Já no comportamental, é possível encontrar no palanque de Lula alguns dos mais notórios personagens da vida política brasileira. Nem é preciso citar nomes... Essa arca de Noé é o mal menor, pois seria até utópico não considerar o objetivo político de conquista, expansão e de preservação dos espaços de poder. O problema maior é que a mercantilização da política é uma das mais graves vias de descaracterização da democracia e da expressão livre da vontade popular. O Estado democrático de Direito será perfeito caso os governantes e governados assumam comportamentos compatíveis com a solidariedade e o interesse público. Fora desse parâmetro ocorre a privatização do público. O venha a mim e o resto que se dane. O país precisa encontra caminhos pavimentados pela crença e pela largueza de propósitos, observando-se, acima de tudo, os reais interesses da população. A melhor oportunidade para consolidar essa via é através do voto. Só se aprende a votar, votando. Se você votou errado no passado, procure se corrigir, tenha mais cuidado. Talvez também sejamos um pouco anti-éticos. A gente, às vezes, tem medo da própria face. Normal. A ética não está pronta. Está por se construir. Mas é preciso começar.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC