A mídia nacional vem noticiando, para nosso horror, que agora o crime organizado abriu definitivamente seu leque de vítimas. A ordem é atacar supermercados, bancos, cinemas, agentes de polícia, funcionários públicos etc. etc. Ninguém mais estará livre de um atentado. Isso quer dizer que o objetivo é sangue, e não pouco.
Todos estamos, neste momento, caminhando às cegas, avançando num nevoeiro, para usar uma expressão de Milan Kundera. O nevoeiro parece ser o nosso fardo. De que adianta vivermos “num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”? Somos vítimas de uma sociedade esgarçada pela falta de endereço. Vítimas de um sistema político abúlico e anódino. Mas o que é exatamente a vítima? Responde Finkielkraut: “Nada de preciso: um homem arrancado de seu entorno e de suas raízes, fora do chão e fora da situação, esvaziado de si mesmo e privado de suas possibilidades em função de apenas uma desgraça sem nome.”
É o que está acontecendo conosco. Comigo, com você, com todos nós. Tiraram-nos o chão onde pisamos, usurparam nosso poder de reagir, de contestar, arrancaram-nos o coração, deixando-nos nus, vazios, sem alma.
Naturalmente, não se pode dizer que esse estado de coisas não teve uma razão. Ele não caiu como um raio em céu azul sem nuvens. Não pegou absolutamente ninguém de surpresa porque, há muito tempo, preparavam-se literalmente as bazucas. Uma sociedade desigual, onde uma minoria detém o dinheiro e outra se debate nas águas da miséria, tentando sobreviver, só poderia levar à insatisfação e ao desejo de desforra. Por outro lado, um sistema político falido, eivado de corrupção e mentira, jamais teria condição de fincar raízes em qualquer modelo moral para impor respeito ou almejar um mínimo de ordem.
O inaceitável resultante dessa situação é perceber esse cansaço pesado de suportar, que leva à falência do instinto de conservação e à carência até da pouca energia necessária para afirmar o “eu” de cada um. Isso lembra-nos um autor russo, Varlam Chamabov (1907-1982), que relata, em Récits de la Kolyma, suas experiências nos campos de concentração, onde passou 17 anos de sua vida. Chamabov evoca o episódio do jovem Dougaïev, obrigado, em Kolyma, a cavar a rocha, e a não alcançar, apesar dos esforços, o desempenho que dele se espera. Ao final da jornada de trabalho, porque não conseguiu executar a tarefa, os soldados levam Dougaïev para ser executado. E ali, naquele verdadeiro “círculo do inferno”, onde a temperatura chega a 60º abaixo de zero, num campo de exterminação pelas condições adversas de trabalho, Dougaïev, ao compreender do que se tratava, lamentou ter trabalhado e ter sofrido em vão esse dia, esse último dia.
Ultimamente, vimos pensando muito nessa passagem sobre Dougaïev. E nos indagamos se essa não é uma situação parecida com a da classe média brasileira. Será que, como Dougaïev, o brasileiro não estaria pressionado, desiludido, tentando em vão cavar sua rocha e sabendo, de antemão, que não alcançará o desempenho que dele se espera? Será que, exatamente por isso, ele não estaria cruzando os braços, num sinal de impotência, vivendo sua 25.ª Hora, de que falava um outro escritor, na qual qualquer esforço é vão e toda tentativa de sobreviver é inútil? Pensemos nisso juntos.
A autora, Maria da Glória De Rosa, é colaboradora da seção Opinião - e-mail: mgderosa@uol.com.br