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Voar é sentir...


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Um dia antes do natal de 2005 eu tive o prazer de experimentar uma nova emoção. Mesmo tendo cursado uma universidade de psicologia e possuir cerca de 6.000 horas de vôo em planadores, esse esporte é capaz de trazer-nos sempre novos ensinamentos e grandes aventuras. Dia 24/12/2005, num belo dia de vôo em nosso clube - “Wellington Gliding Club” - tive a oportunidade de realizar um vôo com um passageiro cego (100%), que me pediu que falasse a todo momento o que estava se passando. Não foi fácil para mim, estava aprendendo uma nova língua, mas diante das dificuldades sempre encontramos novos caminhos. Assim que decolamos comecei a descrever a linda vista da Ilha Kapiti, as diversas cores que o mar oferecia em meio à sombra das nuvens, contrastadas ao verde belíssimo das montanhas. A impossibilidade de enxergar e a dificuldade de nos comunicarmos, juntas criaram uma nova forma de expressão que talvez seja particular do vôo a vela, “o sentir”.

Pedi-lhe que colocasse a sua mão direita no manche e ouvisse o barulho do vento que entrava pela janela com as diferentes velocidades. Ok, respondeu ele. Posteriormente demonstrei as inclinações de 20 graus, 30 graus e 45 graus. Suavemente ele começou a pilotar e eu o acompanhava com os pedais e assim voamos por cerca de 1h20. Entre térmicas pedia-lhe que voasse mais veloz, cerca de 70 kt. Incrivelmente a margem de erro era inferior a 5 kt, da mesma forma ocorria quando voávamos em térmica, 50 kt com 30 graus de inclinação e lá estávamos nós, “um aluno cego com um instrutor quase mudo”, entendendo perfeitamente a fantástica forca da natureza. Assumi o controle novamente no circuito de tráfego realizando uma contagem regressiva, até o momento do toque na pista para que ele sentisse também a sensação exata do pouso. Ao sairmos do planador ele me abraçou e agradeceu dizendo:

- Este foi o meu terceiro e melhor vôo de planador, pois pela primeira vez eu senti que estava pilotando.

Como psicólogo, posso dizer: - Nossas limitações nunca serão maiores que nossos desejos. Como piloto de planador digo: - Que esporte maravilhoso é esse, capaz de unir deficiências, pessoas e nações diferentes num só ato, “A simples e bela arte de voar”. E, finalmente, como pessoa só poderia agradecer o privilégio deste momento mágico.

Obrigado, Papai Noel!

O autor, Luis Improta do Brasil, é campeão de vôo a vela, e-mail: improta_67@yahoo.com.br

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