Pesca & Lazer

História de pescador: Uma pescaria diferenciada


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Durante os anos 70, eu trabalhei no aeroporto de Bauru, quando tinha a doce missão de visitar periodicamente um outro aeroporto, este da Cesp, que ficava às margens do rio Paraná, no complexo hidrelétrico de Urubupungá.

Eu era sempre recepcionado pelo saudoso colega de trabalho Luiz Portela, que, tal como eu, gostava de uma boa pescaria. Só que pescar com ele tinha um probleminha - ele tinha medo de rio.

Eu ia sempre de carona pelo antigo Correio Aéreo Nacional da FAB, que fazia linha semanal de São Paulo a Rio Branco, no estado do Acre, fazendo o percurso de retorno em um ou dois dias depois. Eu desembarcava em Urubupungá, onde primeiro trabalhava e depois pescava até a volta do avião. Mas aí tinha outro probleminha - era proibido transportar peixes no avião do correio.

Por causa do medo do Portela, eu ficava justamente com ele fazendo pescaria de barranco e pescando peixes miúdos, enquanto os demais companheiros pescavam peixes graúdos, utilizando um grande bote de madeira no qual meu amigo não entrava nem morto. Eu sempre reclamava e ele dizia todas as vezes que a próxima pescaria seria diferenciada.

A tal pescaria diferenciada realmente veio a acontecer, mas quem ficou com medo dessa vez fui eu, pois se tratava de uma pescaria em local proibido, modalidade também proibida e coibida pelos guardas da Cesp e pela então Polícia Florestal.

A turma do Portela saiu levando vários baldes vazios e lacrados, chamados de joão-bobo, que amarrados a grossas linhas com empates, giradores e enormes anzóis com as respectivas iscas, eram atirados com o carro em movimento no lado de baixo do aterro da hidrelétrica de Jupiá, onde um montão de peixes que tinham o seu percurso interrompido por aquele imenso obstáculo abocanhavam qualquer coisa que lhes fosse atirado. Depois era só fazer o retorno mais adiante, passar pela cara dos guardas e torcer para que a segunda equipe tivesse sorte no momento de resgatar os joão-bobos com ou sem peixes a mais ou menos uns 500 metros dali, embaixo da ponte da RFFSA, equipe essa que também era obrigada a usar bote. O medroso Luiz Portela foi com primeira equipe que não precisava usar barcos e eu, que era mais corajoso, não fui em nenhuma delas, ficando na moita pescando de pescoço.

Pela minha participação “espiritual” nessa pescaria, ganhei três belos exemplares, os quais tinham de vir para Bauru de qualquer maneira e a forma encontrada foi acondicioná-los junto com as amostras de combustíveis e lubrificantes que eu sempre trazia.

O velho avião da FAB, um DC-3 a gasolina, atrasou no seu retorno do Acre e a tripulação não pretendia fazer escala em Urubupungá, por isso não gostaram nem um pouquinho em realizá-la só por minha causa, então me fizeram embarcar com bagagem e tudo sem baixar a escadinha do avião. Nem desligaram os seus dois motores.

Já dentro do avião e voando de volta para casa, uma notícia preocupante, pois havia mau tempo em Bauru, então eu teria de desembarcar somente em São Paulo. Mas e a minha enorme bagagem? Como ficariam os meus peixes?

Para piorar, havia no avião um grupo de índios vindos lá do Norte do País, que começaram a olhar para mim e sorrir. Eles tinham faro-fino, descobriram os meus peixes e do nariz deles para o ouvido do comandante foi só um instante.

O comandante era o Major Lins, oficial aviador com cara de mau, que deixou o co-piloto sozinho na cabine e veio falar comigo e, como bom negociador que ele era, logo fizemos um acordo.

O avião fez escala normalmente no Aeroporto de Bauru, onde também desembarquei normalmente, mas sem os peixes e ainda fiquei devendo para o gentil comandante um casal de pássaros-pretos, que, se até hoje não paguei em 30 anos, não pagarei nunca mais.

Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias.

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