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Constrangimento interno


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Creio que hoje muito poucos cidadãos brasileiros, razoavelmente informados, têm dúvida que é a política monetária do Banco Central que impede o desenvolvimento do país. Tal política vem de longe, não começou neste governo, é preciso ser claro quanto às suas origens: em 1998, quando FHC preparava a sua reeleição, eu tentei mostrar que o Brasil tinha se tornado refém do sistema financeiro por causa da dependência externa construída pela “âncora cambial” e pelo crescimento exponencial da dívida pública interna.

A política cambial, arrasando o setor exportador, produzira um déficit externo de 100 bilhões de dólares; para financiá-lo, atraiu-se toda a sorte de capital vagabundo, oferecendo juros reais de 20% durante 4 anos! Adicionalmente alienou parte do patrimônio nacional para obter “capital de giro” rápido e tranqüilizar os credores externos... Apesar da venda deste patrimônio e por controlar mal as despesas, permitiu o aumento da dívida pública interna de 30% para 55% do PIB. E aumentou a carga de impostos sobre os brasileiros, de 26% para 37% do PIB, aqui para tranqüilizar os credores internos... Essa é uma performance que deveria figurar no “livro dos recordes”. Naquela ocasião não se conseguia alertar as pessoas para os problemas reais da economia: havia uma espécie de interdição do debate, talvez pela euforia com o plano Real ou pela notória influência do sistema financeiro na mídia. A verdade é que armadilha se manteve e o crescimento econômico continuou medíocre até 2002. Duas coisas cresciam contudo: o desemprego na produção e o lucro dos bancos.

Com a mudança da política cambial em 1999 (desvalorização do Real + flutuação da taxa de câmbio), as exportações se recuperaram e foi possível quebrar um dos elos da armadilha: o constrangimento externo praticamente desapareceu de 2002 aos dias de hoje. Graças aos saldos comerciais e à melhor inteligência da política econômica, o Brasil não tem mais dívida externa pública, praticamente. Não se pode negar que foi uma performance brilhante. Já o constrangimento interno que tolhe o crescimento continua funcionando, impávido.

O que não é razoável é que demore tanto a “cair a ficha” dentro do governo para entender o quanto é trágico e ao mesmo tempo ridículo sustentar uma política monetária e cambial que tolhe a expansão dos investimentos na produção e, já agora, também na exportação. É isso que mantém ainda elevados os níveis de desemprego e coloca o Brasil na lanterninha do desenvolvimento entre os países emergentes. Uma política equivocada, baseada no mito que a inflação vai retornar se a economia crescer mais de 3,5% ao ano; e, pior ainda, alicerçada na farsa montada no Copom segundo a qual uma taxa real de juros inferior a 10% ao ano produzirá uma explosão de consumo que implodirá a meta inflacionária!

Donde se conclui que o nosso Banco Central continua refém do sistema financeiro... Nada exige, porém, que o governo seja refém do Banco Central.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal (PMDB-SP), professor emérito da FEA/USP e foi ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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