São Paulo - O temor de que a disputa política provoque desgastes eleitorais para governo e oposição e agrave a crise de segurança pública em São Paulo levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador Cláudio Lembo (PFL) a afinarem o discurso após uma semana de intenso bate-boca entre seus auxiliares e aliados.
Ontem, em uma reunião reservada de 40 minutos no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com a presença de ministros e comandantes das Forças Armadas, acertaram um pacto de cooperação do Exército com a polícia paulista com foco no trabalho de inteligência, sobretudo com utilização de satélites para a localização de células do crime organizado e interceptações telefônicas.
O envio de tropas às ruas, o ponto mais polêmico da cooperação, foi descartado por enquanto pelo próprio presidente. Para Lula, só haverá uso das tropas em caso de necessidade. “À medida em que houver necessidade, o Exército brasileiro tem 10 mil homens para ajudar a Polícia Militar e o governo de São Paulo, sobretudo a sociedade paulista, que não merece passar pelo que está passando”, disse Lula.
Hoje faz três meses que o PCC iniciou a primeira onda de ataques. Lula deu as declarações após passar revista às tropas no 2.º Grupo de Artilharia de Campanha Leve do Exército, em Barueri (Grande São Paulo). “A necessidade (de tropas) não é determinada por um ataque, mas pela logística dos comandos”, esclareceu o presidente.
O ministro da Defesa, Waldir Pires, que dias atrás se dizia “perplexo” com recusa de São Paulo ao envio das tropas, afirmou anteontem que o apoio do Exército se dará basicamente em ações de inteligência, como queria Cláudio Lembo (PFL). “A preparação não é para choque na rua. É de inteligência, de localização dos centros de conspiração que está dando nesse clima de surtos que ocorrem aqui e ali, trazendo a intranqüilidade. Não é de confronto”, afirmou.
Ontem, Lembo disse que o Exército e a PM já estão integrados “Essa ajuda já existe. Por que vocês querem tropa na rua?”, disse a jornalistas. Em seguida, em tom de mistério, o governador confirmou o acordo com a União: “Vocês assistirão na próxima semana maior integração, mais passos da integração efetiva”.
Num rápido discurso aos soldados, Lembo deu outros sinais de que foi selada a trégua. Disse que a Polícia Militar é uma força auxiliar do Exército e que ambos estão sempre integrados.
Embora o governo federal, por meio do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), tenha oferecido publicamente o envio de tropas, Lula nunca teve interesse, de fato, em implementá-la. Temia as conseqüências, que julga imprevisíveis, de uma ação militar em São Paulo em plena campanha eleitoral. No encontro com Lembo, Lula estava acompanhado também dos ministros Thomaz Bastos e Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência).
O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, por sua vez, não participou do encontro. Saulo, que acusou o PT de estar por trás dos ataques da facção criminosa e bateu boca com o ministro da Justiça, não foi convidado para a reunião, segundo informou sua assessoria de imprensa.