Quando o Senhor fez chover enxofre e fogo desde os céus sobre Sodoma e Gomorra lembrou-se do pedido de Abraão para que não destruísse o justo com o ímpio. Deus retirou Ló do meio da destruição e derrubou aquelas cidades onde ele habitara, símbolos do mais baixo grau a que pode chegar a decadência humana (Gênesis 19:24-29). Tudo o que a Bíblia nos conta como exemplos da justiça divina é passível de se repetir. O homem abusa do livre-arbítrio em proveito próprio. É o caso acontecido em Rondônia, onde um esquema de corrupção envolve Executivo, Legislativo e Judiciário, nos escalões mais altos. Dos 24 deputados à Assembléia Legislativa apenas um não participou do assalto ao erário. Quem é esse filho de Deus? Por que não se corrompeu como os demais? Talvez ele se configure em um novo Ló, reconhecido por Abraão em meio a tanta maldade e colocado a salvo do fogo. Mesmo que sua mulher também peque pela curiosidade e se transforme numa estátua de sal ao olhar para trás, é preciso dar a essa raridade de Rondônia o destaque merecido. A imprensa, à cata de notícias ruins, ao denunciar o escândalo (mais um), simplesmente ignorou esse “bom selvagem”, a que se referia Jean-Jacques Rosseau - aquele que ainda conserva a ingenuidade primitiva e não se contaminou em contato com a sociedade. Alguns cronistas como Clóvis Rossi, da Folha, cobraram uma postura da mídia em exaltação à ética e aos que a praticam. Tive que fuçar na internet para achar o nome do cidadão. Fiquei sabendo tratar-se de Neri Firijolo (PT), lavrador como os pais, gaúcho de nascimento e radicado na pequena cidade de Cacoal, no Estado de Rondônia. Logo que detonou o escândalo o deputado pediu o afastamento de todos os implicados, mas o presidente da Casa, Carlão de Oliveira (PSL), líder do esquema, simplesmente mandou arquivar o processo. Em seu gabinete Carlão mantém 756 funcionários não-concursados e movimenta uma folha de mais de R$ 10 milhões, quando o limite de gastos é de apenas R$ 162 mil. A Polícia Federal denominou de Operação Dominó a prisão dos bandidos por formação de quadrilha, exploração de prestígio e concussão (extorsão ou exigência abusiva com a utilização do cargo público para tirar vantagens pessoais ou para outrem). Procuradores, promotores e até o presidente do Tribunal de Justiça estão implicados por receberem aumentos de salários da Assembléia, para dar sentenças favoráveis aos funcionários fantasmas.
É uma situação mais assustadora que a de Chicago na época da Lei Seca. A Máfia pagava proteção aos gestores públicos corruptos. Em Rondônia, em Brasília - e sabe-se lá aonde mais - os políticos não são comprados pelos bandidos porque são eles simplesmente os membros da quadrilha: assaltam com uma mão e com a outra se livram das algemas. O curioso é que nem o Neri (Ló) Firijolo se acha imaculado. Em entrevista a um jornal de Porto Velho assegura que “100% honesto ninguém é”. Pesa sobre ele também uma velha acusação de manter funcionária no seu gabinete que não aparece para trabalhar. Reclama do seu salário de R$ 18 mil. Acha pouco porque todo mundo quer que patrocine festas, compre bolas de futebol e pague a luz atrasada.
Estava propenso a sugerir que se cortasse um pedacinho da orelha do deputado para a clonagem de um embrião capaz de gerar células-tronco e assim regenerar corruptos. Seria uma forma de acabar com a corrupção endêmica que nos assola sem matar os hospedeiros. Ou então, para reproduzir Justos da Silva in vitro, por inteiro, em séries, mesmo que a Igreja condene esse tipo de avanço tecnológico. Pensei também em cruzar o deputado honesto com a Heloisa Helena. Acontece que aquele espécime de Cacoal que sobrou, tem essas nódoas que a gente não sabe como podem evoluir. Talvez seja melhor não correr o risco de produzir milhares de canalhas menores. Com a agravante de poderem herdar a verve da candidata do PSOL. Seria um desastre biológico. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do Jornal da Cidade)