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Professores esperam alunos críticos com filosofia e sociologia

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

A partir do ano que vem, todas as escolas brasileiras, sejam públicas ou particulares, terão de incluir em suas grades curriculares as disciplinas de filosofia e sociologia. A alteração foi bem recebida tanto pelas escolas quanto pelos professores, que vêem nessa mudança uma oportunidade de formar alunos mais críticos e com maior capacidade de raciocínio sobre a realidade que os cercam.

No Estado de São Paulo, as aulas de filosofia foram retomadas no ano passado nas escolas públicas. A novidade agora será a volta da sociologia. Essas duas disciplinas deixaram de fazer parte do ensino médio no fim dos anos 90.

“Comemorei muito quando fiquei sabendo da aprovação”, disse a professora de sociologia Maria Antônia Vieira Soares, referindo-se à decisão do Conselho Nacional de Educação (CNE) de tornar as duas matérias obrigatórias em todo o território nacional.

No entanto, ela faz uma ressalva. A medida só será uma conquista importante para a educação se estimular o aluno a pensar. “(A decisão) só terá sentido se servir para formar jovens que pensem, que saibam fazer a ponte entre a sociologia e os problemas de hoje”, diz. Se a proposta for apenas falar sobre os principais pensadores filosóficos sem se aprofundar nos ensinamentos ou discutir sociologia de uma maneira superficial, a mudança será inócua, segundo a professora.

O filósofo Antônio Carlos Arruda também acredita que a volta das duas disciplinas foi uma grande conquista para a educação no Brasil. Professor há quase dez anos, ele conta que os alunos têm sérias dificuldades de analisar e refletir sobre os problemas cotidianos. “Nós somos um povo crítico. Mas não somos críticos conscientes. Falta conteúdo”, declara Arruda.

“Dá para perceber que quando trabalhamos filosofia dentro da sala de aula, os alunos passam a se expressar melhor, com mais conteúdo, com mais clareza”, relata o professor. De acordo com ele, as mudanças são notadas até mesmo em outras disciplinas, como na língua portuguesa, por exemplo. “As redações dão um salto de qualidade”, afirma.

Segundo Arruda, é possível perceber esse ganho de qualidade cerca de um mês após o início das aulas. Os próprios alunos comentam com ele que se sentem melhor preparados. Segundo ele, no fim das aulas e durante os intervalos é normal os alunos o procurarem para conversar, para falar de filosofia.

Segundo Maria Antônia, há um grande anseio dos alunos em conhecer melhor as ciências que trabalham com a formação humanística.

Espécie em extinção

Se para os professores, alunos e faculdades que oferecem os cursos de filosofia e sociologia a decisão de tornar essas disciplinas obrigatórias foi intensamente comemorada, entre os donos de escolas ela foi recebida com muita preocupação. As duas principais dúvidas são como adequar essas duas novas matérias à grade curricular sem prejudicar as já existentes e onde encontrar professores.

Para o diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, Gerson Trevisani, professores de filosofia e sociologia são espécies praticamente extintas.

“A pergunta que nós estamos fazendo é o que vamos fazer no ano que vem para encontrar um professor para dar as duas aulas de filosofia e sociologia. Achar professor de filosofia é difícil, mas ainda dá. Agora, achar professor de sociologia é bem mais complicado”, admite Trevisani. “Mas nós vamos achar”, garante.

Segundo ele, as escolas particulares sempre ofereceram aos seus alunos os conceitos básicos de filosofia. Eles eram inseridos na disciplina de português. E os conceitos de sociologia dentro de história e geografia. Trevisani julgou como positiva a decisão do governo. “Eu acho que são assuntos fundamentais. Não podemos ficar apenas no mundo da tecnologia e esquecer o lado humano.” De acordo com ele, não haverá grandes dificuldades para acomodar as novas disciplinas aos currículos das escolas particulares.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) também comemorou o retorno de filosofia e sociologia ao currículo do ensino médio. (AC)

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‘Cura da ignorância’

Para o coordenador do curso de filosofia da Universidade do Sagrado Coração de Jesus (USC), Carlos Alberto Albertuni, a aplicação da disciplina em todas as escolas do País deve melhorar não só a qualidade do ensino como também a qualidade dos alunos, que ficarão mais preparados para lidar com as informações que recebem diariamente. “A filosofia é a cura da ignorância”, afirma ele.

Albertuni conta que, até o ano passado, poucos alunos buscavam a licenciatura em filosofia. Por causa da baixa procura, há dois anos a universidade passou a oferecer também o bacharelado em filosofia, mais voltado para a pesquisa. A licenciatura permite dar aulas.

Segundo o coordenador, cada um dos cursos oferece 40 vagas no período noturno. Como essas vagas não são totalmente preenchidas, acabam sendo ocupadas por profissionais já formados que buscam na filosofia um aprimoramento, como médicos, advogados e professores. Como eles já são formados e existem vagas disponíveis, não precisam passar pelo vestibular. Anualmente, a USC forma em média 20 filósofos. Além do trabalho em sala de aula, alguns prestam assessoria a empresas, outros seguem carreira eclesiástica. São poucas as opções de trabalho, por isso, não atrai tantos interessados. Mas isso deve mudar com entrada em vigor da decisão do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Na região, além da USC, apenas a Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Marília oferece o curso de filosofia. O câmpus da Unesp de Araraquara é um dos poucos onde ainda se formam sociólogos. (AC)

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