Em uma sociedade onde o dinheiro é sinônimo de poder, o ter sobrepõe o ser e ter status significa aceitação, é difícil imaginar que haja pessoas que se dediquem à procura de seu eu verdadeiro. Mas é assim que vivem os adeptos da filosofia Hari Krishna, movimento que tem milhões de seguidores na Índia e no Ocidente e que também está presente na cidade de Pirajuí (a 58 quilômetros de Bauru), onde vivem quatro famílias. Ser Hari Krishna é ter consciência de si mesmo, ter o pensamento elevado para coisas de valor inestimáveis, ter paz, substituir a ansiedade do ter pelo prazer de se conhecer e se aceitar. É assim, de maneira simples, que o casal Divya Buddhi Das e Radha Sneha Devi definem a filosofia, misto de ciência, considerada a mais antiga tradição religiosa de que se tem conhecimento.
O casal, que vive em Pirajuí e compartilha com mais três famílias os conhecimentos e os rituais, recebeu esse nome após o batismo no Hari Krishna. Antes, eles eram Ederalvo Gomes, 63 anos, e Eunice Augusta de Oliveira Gomes, 64 anos.
Menos radicais do que aqueles que se engajaram no movimento na década de 80, quando ser Hari Krishna era moda no Brasil, eles levam uma vida quase normal e adotam a filosofia para trilhar um caminho diferente da maioria dos moradores da cidade de Pirajuí, com seus 22 mil habitantes.
Divya Buddhi Das é professor de inglês, língua que o fez entrar em contato com a filosofia. “Na década de 70, conheci o movimento. Foi em Miami que comprei o primeiro livro. Posteriormente, em Boston, conheci um templo e passei a freqüentá-lo aos domingos.”
Radha Sneha Devi é dona de casa e se dedica à venda de incensos, livros, folhetos e pães, que faz duas vezes por semana. Ambos usam roupas normais para trabalhar, mas quando praticam os rituais não esquecem do doti e da sari, roupas devocionais.
O casal nunca entrou de cabeça no movimento porque alega que descobriu que não é preciso abandonar tudo para viver a filosofia. “É possível ser Hari Krishna sem abandonar tudo e ir para o mosteiro. O principal é ter consciência da realidade maior. Tenho um amigo que é um dos líderes da filosofia na Capital. Ele deixou emprego e vida particular para se dedicar a isto.”
A filosofia é muita extensa, explica Divya Buddhi Das. “Temos centenas de livros para ler, refletir e meditar. Toda manhã pratico um ritual que consiste em tocar, cantar, ler, refletir e fazer oferendas num altar montado na sala de casa.”
A música do Hari Krishna inclui mantras e as oferendas são feitas em um altar dentro da própria casa. “Oferecemos a Krishna flores, água, perfume, incenso e alimento. Só depois que o alimento é consagrado é que podemos ingeri-lo.”
Os quadros que lembram os líderes da filosofia estão espalhados por toda a casa. Um olhar de Krishna consagra o alimento e dá o ‘start’ para a ingestão dele. “Só depois desse ritual é que saímos de casa para ganhar a vida.”
Todo alimento obtido com violência é recusado pelos adeptos. “Por isso não ingerimos qualquer espécie de carne. Nos alimentamos de vegetais, frutas e cereais. Nossa feijoada é feita com carne de soja. É uma opção pela saúde.”