Cultura

Gramado avança rumo ao passado

Por Silvana Arantas | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

O Festival de Gramado inaugura hoje sua 34.ª edição com mudanças no perfil da competição pelo troféu Kikito. Documentários em longa-metragem e títulos de ficção brasileiros agora formam uma só categoria e disputam os mesmos prêmios. É o fim da distinção que, na antiga hierarquia do festival, relegava os documentários ao segundo plano e à chance de um único troféu, o de melhor filme do evento. A partir deste ano, um autor de documentário poderá sair de Gramado levando o Kikito de melhor direção, por exemplo.

O festival mudou também a composição de seus júris. Um brasileiro preside a comissão que avaliará os filmes latinos, e um estrangeiro ocupa a presidência do júri que definirá os vencedores nacionais. O júri popular - cujo vencedor recebe premiação em dinheiro - é agora composto por um número fixo de integrantes, que terão o compromisso de assistir a todos os concorrentes. Antes, o voto popular se baseava na reação aos filmes pelo público de suas respectivas sessões, sempre diverso.

A programação paralela à disputa por prêmios ganhou ênfase no debate de questões atuais relacionadas ao mercado de cinema. É uma tentativa de dar ao festival o status de plataforma de tendências. Em dois seminários distintos, os assuntos discutidos neste ano serão o lugar reservado aos roteiristas na engenharia financeira dos filmes e o futuro do mercado de DVDs - que já é a ponta mais lucrativa da indústria cinematográfica em seu principal mercado, os Estados Unidos.

Já os roteiristas brasileiros eram até há pouco tempo apontados como o elo frágil (em qualidade) da cadeia criativa. A indicação ao Oscar de Bráulio Mantovani, por “Cidade de Deus” (2002), marca a virada da categoria, que quer ver seu valor agora reconhecido também em cifrões. Tanta novidade no festival, no entanto, tem o objetivo de fazê-lo voltar atrás - ao posto de mais importante mostra de cinema brasileiro, hoje ocupado pelo Festival de Brasília, que, por sua vez, assiste ao avanço em seus calcanhares da Mostra de São Paulo e do Festival do Rio, ambos com programação internacional, mas cujas franjas brasileiras crescem em importância a cada ano.

Se é fato que a concorrência aumentou, é certo também que Gramado caiu sozinho. O festival se descaracterizou a partir de 1992, quando a seca da produção nacional (subseqüente à extinção da Embrafilme) levou a mostra a abrir sua competição para filmes latinos, como uma típica solução-tampão. Desde então, à medida que a produção nacional se revigora, Gramado oscila entre enfatizar a disputa nacional - ora de ficção, ora de documentários, conforme esteja o vigor de cada um - sem deixar de lançar mão da “valorização” dos filmes latinos a cada entressafra local.

Com uma seleção de títulos titubeante, o foco do festival passou a ser a presença de estrelas globais (da TV, portanto). O desfile de celebridades é constante em Gramado desde sua primeira edição. Desacompanhado de bons filmes, no entanto, ele não faz mais do que ressaltar sua inconsistência. Os organizadores do festival não falam abertamente em perda de rumo, mas traçaram o plano de ajuste.

“Pretendemos em três anos fazer com que o Festival de Cinema de Gramado tenha um formato mais definitivo e não mude de acordo com a cinematografia brasileira, que num ano está bem, no outro não está”, diz Enoir Zorzanello, ocupante da presidência do festival até o mês passado, que deixou o cargo (por um de conselheiro) à raiz de um imbróglio burocrático envolvendo suspeitas de irregularidade em prestações de contas anteriores da mostra.

Zorzanello foi substituído na presidência do festival por Alemir Coletto, secretário de Turismo de Gramado, para cuja economia o festival “tem uma importância transcendental”, diz ele. Coletto quer que continue sendo assim. Por isso o Festival de Gramado anda mudando, para ver se fica igual - ao que já foi.

- - -

Estudantes de Bauru exibem curta no festival

Os estudantes de jornalismo Fernando Lima e Vitor Cardoso embarcariam ontem para Gramado (RS) para participar do 14.º Gramado Cine Vídeo. Além de oficinas, aulas e assistir a sessões de longas durante toda a semana, eles exibem ao público o curta-metragem musical “Apollo”, do qual são diretores.

O vídeo foi idealizado Lima e Cardoso juntamente com Julia Ruiz e Katiuscia Teodoro para a disciplina de jornalismo televisado do curso de jornalismo da Universidade do Sagrado Coração (USC), mas ganhou proporções maiores conforme os quatro se dedicavam a ele.

Ao todo, “Apollo” contou com a participação de mais de 50 pessoas, entre produção, atores, corpo de baile, músicos e figurantes, com orçamento estimado em cerca de R$ 7 mil. O vídeo conta a história de um famoso locutor de rádio de 22 anos que vive entre dois mundos: o de estrela do rádio e o de anônimo fora dos estúdios. Os diretores optaram por contar a história em um musical ao perceber que seu personagem enxergava a vida pela música. O título do vídeo remete ao deus grego Apolo, deus da arte e da música.

“Apollo” foi selecionado entre mais de 850 inscritos e ficou entre os 20 vídeos escolhidos para a mostra paralela. Outros 150 entraram no festival competitivo. (Da Redação)

Comentários

Comentários