São Paulo - A decisão de veicular a fita com o manifesto gravado pelo PCC foi tomada pela Rede Globo após consultas a duas entidades internacionais de controle de riscos e segurança, além da polícia, afirma a emissora. As instituições orientaram a favor da divulgação e a polícia, contra.
“A polícia entendia que era uma decisão dramática que cabia à TV Globo, embora recomendasse mais tempo para a investigação antes da veiculação da fita”, informou a assessoria de imprensa da emissora. “Para não correr o risco de perder o repórter, a TV Globo decidiu colocá-la no ar.”
Em nota oficial, a emissora informou ainda que pretendia “tomar uma decisão em conjunto com as entidades de classe do setor. Mas como tudo se deu na noite de sábado, foi impossível esperar.”
A fita, com duração de três minutos e 36 segundos, foi veiculada à 0h28 de hoje, apresentada pelo repórter César Tralli. “Vim para a redação quando soube da libertação. Estamos todos tentando entender o que está acontecendo e acho que (o seqüestro) vai ter impacto na rotina jornalística”, afirmou Tralli ontem. “Estamos muito abalados e a prioridade, agora, é soltá-lo.”
A Globo deve divulgar hoje a audiência da transmissão do vídeo, que ocorreu no intervalo do “Supercine”. Na média, o programa é visto por 49% dos domicílios do País com TVs ligadas nesse horário.
Na Grande SP, o “Supercine” costuma ter mais de dez pontos no Ibope, o que equivale a mais de 550 mil domicílios. O CD chegou à emissora com o auxiliar técnico que havia sido seqüestrado com o repórter e que foi libertado às 22h30 de sábado.
A recomendação era de que a fita fosse ao ar “o mais rápido possível” e que fosse veiculada a parte em que um integrante do PCC lê um manifesto. Por esse motivo, segundo a Globo, foi cortado o início do vídeo, que mostrava armas da facção. O recado enviado pelos seqüestradores: caso as exigências não fossem atendidas, o repórter seria morto.
A TV Globo afirma ter consultado a International News Safety Institute (INSI), entidade de segurança que assessora grupos de comunicação, e conversado com Luiza Rangel, de Caracas, coordenadora do INSI para a América Latina. De acordo com a emissora, ela atestou que em situações de extrema emergência, quando os prazos são exíguos e quando não se têm dúvidas sobre o descompromisso dos bandidos para com a vida humana, a postura correta é ceder às exigências.
A Globo também teria entrado em contato com Tim Crocket, chefe do escritório de Atlanta do The AKE Group, empresa especializada em gestão de riscos. Crocket deu a mesma orientação que Luiza: “Nas condições em que nos encontrávamos, não havia alternativa”, diz a nota da TV. A emissora resolveu, então, cumprir a exigência dos criminosos e veiculou a fita no Estado de São Paulo, já que o problema diz respeito apenas à essa região do País, informou a assessoria.
A TV Globo não recebeu nenhum telefonema dos seqüestradores no sábado nem no domingo. Até as 18h de ontem, a orientação era para que o vídeo não fosse reprisado. Na emissora, a equipe de jornalismo viveu ontem um clima de expectativa e cautela. As equipes foram às ruas acompanhadas por seguranças e quem entrava ou saía da emissora não queria dar declarações. O diretor-geral de jornalismo, Carlos Schöreder, viajou do Rio para São Paulo e passou o dia em reuniões.
Precauções
Outras redes de TV também estão estudando novos procedimentos de segurança. Na Record, por exemplo, os veículos têm monitoramento via satélite e alguns estão sendo acompanhados por seguranças. Tanto a Record quanto a Bandeirantes negaram ter recebido o CD. Já o SBT recebeu cópia da fita na quarta-feira. O material foi jogado no pátio da emissora, na Anhanguera. A direção optou por não colocar as imagens no ar e encaminhou a gravação ao Ministério Público. A rádio CBN transmitiu a íntegra do áudio do CD na madrugada de ontem, após a veiculação na TV, e na abertura do “Jornal da CBN”.
A equipe preparava uma reportagem para ser exibida no “Fantástico”. Às 6h56, antes de terminar a missa transmitida ao vivo todos os domingos pela emissora, padre Marcelo pediu para que os seqüestradores libertassem o repórter. “Por favor, devolva. Não brinque com essas pessoas. São trabalhadores. Por favor, solte. Que tenha o direito de passar o dia com seu pais... Estamos orando. Que Guilherme seja solto hoje, por favor, em nome de Deus.''