Nacional

Gramado tem sua noite de cafonice

Por Silvana Arantes | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

O Festival de Gramado sempre tem ao menos um momento em que se entrega sem freios à pieguice e outro em que exibe em competição algo constrangedor. Neste ano, os dois chegaram cedo e juntos, anteontem, na segunda noite da mostra. O tropeço na cafonice se deu na homenagem ao ator Antônio Fagundes por sua carreira. O homenageado, que foi breve e elegante ao agradecer o troféu Oscarito, nada tem a ver com os escorregões, fartos nos textos lidos e/ou improvisados pelos apresentadores Andrea Buzato e José de Abreu.

Em tom intimista, Abreu se referiu a Fagundes sempre pelo apelido de Fafá. Afirmou que “Fafá é um colega que honra a classe e orgulha a categoria”. Buzato exaltou primeiro o próprio troféu – “Há 16 anos Gramado tem seu Oscar, o Oscarito” - e em seguida o agraciado, usando um jogo de palavras com o título do último filme de Cacá Diegues protagonizado por Fagundes: “Se ‘Deus É Brasileiro’, então Antônio Fagundes é um brasileiro que é deus”.

Durante os aplausos ao ator, uma voz feminina se destacou na platéia, gritando “lindo!”. Buzato não perdeu a chance de observar “o furor que ele causa na mulherada, há anos”. Abreu assegurou que “quem foi Deus nunca perde a divindade”. Arrematou assim a homenagem, para passar à exibição do longa-metragem brasileiro concorrente da noite, “Sonhos e Desejos”, do diretor estreante Marcelo Santiago.

Santiago também foi breve ao apresentar seu título. E redundante. Disse que era “um sonho” dele participar do Festival de Gramado e que seu filme trata “de sonhos e desejos”. Mais desejos do que sonhos, pelo que se viu na tela.

O filme começa com a estudante Clara (Mel Lisboa) ouvindo os inflamados discursos poético-políticos de seu professor, um Felipe Camargo de barba, a cara de Buza Ferraz. Para Clara, um “urso gostoso”. Ela tem seu primeiro sonho: os dois transando no mato, ao lado de uma fogueira acesa. O desejo é recíproco. Os dois se acariciam pelos cantos das salas, com a polícia à espreita do lado de fora. Finalmente casam e mudam, até de nomes.

Estamos nos anos 70. Ela é muito coquete, mas também quer participar. De botas, minissaia e ótima maquiagem, picha o lema “abaixo a burguesia” pelos muros da cidade. Numa ação da guerrilha, um “companheiro” (Sérgio Marone) é atingido na mão e se refugia no “aparelho” do casal. A recuperação demora o bastante para a tensão sexual entre os dois crescer até se solucionar no chão da sala. Diga-se em favor de “Sonhos e Desejos” que ele é feito com capricho. Mas carece de outras virtudes. De quase todas.

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