No início da década de 70, conheci o Nogueira, grande amigo e companheirão dos bons. Oriundo da cidade de Mirandópolis, veio transferido para trabalhar em Valparaíso, onde eu já residia de longa data. Nessa época o Nogueira já era pescador experiente, enquanto eu, mal sabia fisgar uns lambaris nos “corguinhos” da região.
Aos poucos, começamos a pescar junto nas nossas aventuras pelos rios Feio (Aguapeí), Tietê e Paraná. Além da grande amizade, foi consolidando a idéia de discípulo, pois, com a vivência do Nogueira, ele me ensinava as manhas das pescarias, os truques dos rios, as astúcias dos peixes, o manejo do barco, etc.
Certa feita, resolvemos aproveitar o feriado de 1 de maio, que caia numa sexta-feira, e de última hora dar uma pescada no rio Miranda. Arrumamos tudo correndo, juntamos as tralhas, fizemos umas compras e na quinta-feira à noitinha estávamos partindo para essa aventura, com idéia de retornar no domingo à noite. Nessas alturas eu já tinha um conhecimento razoável de pescaria e o Nogueira mais experiência ainda.
Foram cerca de 700 quilômetros até o rio Miranda, numa viagem muito agradável, com a caminhonete do amigo Nogueira, na qual nos revezávamos na pilotagem, lembrando que o papo era animadíssimo. À guisa de curiosidade, o Nogueira pesa nada mais nada menos que 140 quilos. E, como o dito popular diz, todo gordo é alegre, vocês podem imaginar a nossa alegria e felicidade por estarmos nos dirigindo para essa diversão tão salutar que se chama pescaria.
Vencemos os cerca de 700 quilômetros e chegamos ao local pretendido bem de madrugada, faltando pouco para raiar o dia. Descarregamos somente o necessário para fazer um café e, dado o cansaço da viagem, demos uma cochilada na camionete mesmo. Quando começou a clarear o dia, despertamos. Montamos o acampamento bem à beira do rio, ao mesmo tempo em que íamos admirando a exuberância da natureza e a beleza do magnífico rio, que naquele dia, entretanto, apresentava águas turvas.
Logo percebemos que naquela área os únicos pescadores por ali eram eu e o Nogueira, portanto, sentíamos o imenso prazer de que tudo aquilo era nosso, podíamos desfrutar daquelas maravilhas por pelo menos três dias. Arrumamos as varas, as iscas e logo começamos a pescar. Fisga um peixe aqui, outro ali e não demorou muito passou um barco solitário e acenamos para o piloteiro se aproximar. Conversamos para que ele pilotasse para nós.
Naquele trecho do rio Miranda, para navegar é necessário piloteiro com bom conhecimento do rio devido às pedras e à grande quantidade de corredeiras, se não for assim não, consegue transpor os obstáculos e quando o nível do rio está baixo é mais complicado ainda. Por sorte encontramos esse piloteiro chamado “Mussum”. Um bugrinho esperto, ligeiro, despachado, na época com 16/17 anos, conhecia o rio como poucos, pois nasceu e cresceu ali, nas águas do rio Miranda e do rio Aquidauana. Bem, combinamos a tarefa e já fomos logo arrumar as coisas para subir o rio e pescar pacu.
Foi uma pescaria fantástica. À tardinha, quando retornamos ao acampamento, o barco estava repleto de pacus. Contamos 37 peixes. O “Mussum” sabia onde os peixes estavam, onde devia ser lançada a isca e até que tipo de isca mais apropriada para determinados locais e determinados horários, bem como a profundidade daqueles remansos. Limpamos os peixes, demos mais uma organizada no acampamento e, cheios de animação, tomamos um bocado de cerveja e, devido ao cansaço e à grande quantidade de cerveja ingerida, acabamos por dormir mais cedo. O Nogueira, com aquele volume corporal todo, dormiu num colchão na carroceria da caminhonete e eu fui direto no banco, na cabine.
Mas o que eu não esperava aconteceu. O Nogueira ronca muito e tem apinéia, isto é, quando está dormindo ronca alto e perde o fôlego, ficando algum tempo sem respirar, quando volta a respiração parece que está afogando, dá uma parada e em seguida começa tudo de novo.
Eu me assustei com aquilo (a caminhonete até balançava), fiquei preocupado pensando: se tiver um problema grave com o Nogueira, o que vou fazer? Pensava no peso dele, lembrava que estava sozinho (eu e ele), longe de qualquer recurso. Fiquei pensando naquela situação, confesso que fiquei nervoso e não conseguia dormir, enquanto o amigo, roncando, se afogando e a camionete balançando. Para mim foi um sufoco a noite toda, não consegui dormir imaginando a hipótese de ocorrer um problema sério com o companheiro e eu não tinha como socorrê-lo sozinho.
Felizmente, raiou o dia e tudo estava bem com o Nogueira. Falei da minha preocupação a noite inteira (sem dormir), ele riu demoradamente e disse que os médicos tinham afirmado que isso não mata ninguém e que era um pequeno distúrbio, principalmente em virtude de ser gordo. Paguei esse “mico”, mas disse a ele que, se é assim, de agora em diante pode engasgar à vontade que vou dormir tranqüilo, sem preocupações.
Novamente fomos pescar pacu e novamente foi um dia dos mais favoráveis. Capturamos tantos peixes que em dois dias enchemos as duas caixas térmicas. Jubilosos e felizes, decidimos não pescar no domingo e retornamos mais cedo do que estava previsto.
Fora o susto que passei com o amigo e companheiro, foi uma das pescarias mais curtas, entretanto, mais agradáveis e prazerosas que já fizemos. Foi espetacular.
José Oscar Riciardi é administrador hospitalar, pescador e contador de histórias.