Cultura

Mergulho na fantasia

Da Redação
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A mais ambiciosa produção dos Irmãos Pang (“Visões”) estréia hoje no Multiplex Bauru Shopping e traz, em si, contradições que vão da trama e construção dos personagens ao nome escolhido para o lançamento nacional. “Assombração” - “Re-Cycle”, no mercado internacional – não é somente um filme de terror oriental, apesar de começar como tal. O longa dos cineastas de Hong Kong é mais uma reciclagem de elementos variados, dos filmes americanos de zumbi à fantasia de “Alice no País das Maravilhas” e a ambientação de games como “Silent Hill”.

No que se apresenta da trama, o longa acompanha Chu Xun (Angelica Lee, de “Visões” e “20,30,40”), a escritora de um romance que se tornou best-seller em todo o sudeste asiático. Depois de ver seu primeiro texto adaptado para os cinemas, ela confessa usar elementos autobiográficos em sua escrita, pois não conseguiria falar sobre algo sem tê-lo vivenciado, e ouve o próprio editor anunciar seu novo livro, chamado justamente “Re-Cycle”, com uma história sobrenatural.

Pressionada, Chu Xun começa a enfrentar um período de bloqueio criativo enquanto fica dias isolada em seu apartamento. Coisas estranhas passam a acontecer e espíritos de longos cabelos negros invadem sua vida, influenciando diretamente seu texto. O filme entra em momentos de sustos manjados para o gênero, com a trilha e efeitos sonoros exagerados que mostram a marca dos Pang.

Conforme o senso de realidade da personagem se esvanece, o filme adentra sua segunda metade, quando o terror cede espaço para a fantasia. Com os espíritos já dominando suas ações, Chu Xun é levada a um mundo bizarro, uma realidade de lixo descartado, zumbis e fantasmas de um limbo onde leis naturais não existem mais. A partir de então, a luta da escritora será encontrar uma maneira de voltar ao mundo real, fugindo dessa espécie de pesadelo onde é perseguida por espíritos e enfrenta situações recorrentes onde tudo parece... reciclado de sua própria história.

Em resumo, a partir da entrega da personagem, segue-se uma seqüência de locações geradas em computador, em cores fortes e efeitos bem convincentes. Se os Pang exageram na trilha sonora, mostram-se hábeis com a câmera, com enquadramentos que dão margem a novos sustos ou planos abertos nos cenários fantásticos. Seu timing funciona nos passeios da câmera pelos momentos de medo, como na cena da floresta dos enforcados.

No furacão da modernização das cidades, com arranha-céus espelhados e tecnológicos, a jornada de “Assombração” vai em direção ao passado. A escritora sai de sua realidade limpa para um mundo de prédios destruídos, montanhas de lixo, cavalinhos de madeira que se movimentam ao som de melodias antigas e de livros, que simbolizam o que a personagem descarta de sua história.

De qualquer forma, o filme é exemplo da propensão de inundar o público com visual deslumbrante sem apoiar-se em nenhuma substância emocional. Espetáculo que paga o ingresso, mas desperdiça o trabalho de dois cineastas asiáticos que estão entre os mais talentosos de sua geração.

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