Cultura

Dama determinada

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 6 min

Ela tem humor, graça, talento e uma dose extra de determinação. Com apenas 27 anos, são mais de 20 peças de teatro, incluindo participações na televisão e no cinema. Pupila do diretor Antunes Filho, com quem trabalhou por seis anos no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), a atriz – que nasceu em Botucatu e passou a infância e adolescência em Bauru - Arieta Corrêa acaba de estrear o espetáculo “O Avarento” no teatro Cultura Artística, em São Paulo, ao lado de seu “ícone”, Paulo Autran.

Em Bauru, as primeiras peças foram montadas em casa, ainda criança, para um público seleto: os pais. Depois surgiram os mestres da casa, como Paulo Neves, assim, os palcos cresceram. Os sonhos de artista se tornaram reais quando Arieta se mudou para o Rio de Janeiro, com 18 anos, sob o pretexto de um curso de letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que não durou nem um ano.

Dos palcos de escola para os grandes teatros e as telas da Globo, tudo aconteceu rápido, mas no momento certo. “Coisas de Deus”, explica a atriz. Em menos de um ano no Rio, a atriz se tornou celebridade com direito a pedidos de autógrafos na rua, com a personagem Chiquita, da novela “O Rei do Gado”. Com a experiência, a sensação de imaturidade e o mergulho no teatro de Antunes Filho, a quem Arieta credita grande parte de sua formação e amadurecimento. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone ao JC Cultura.

JC – Como surgiu a oportunidade de trabalhar em “O Avarento”?

Arieta Corrêa - O convite veio do diretor Felipe Hirsch. Eu estava há seis anos no CPT com o Antunes e, nesse tempo, estavam rolando uns convites comerciais, mas eu recusava porque estava muito envolvida com o meu personagem Gregório (da peça “O Canto de Gregório”). Mas, como tinha vontade de trabalhar em algo comercial e que, ao mesmo tempo, tivesse um padrão de qualidade, quando encerramos o espetáculo decidi integrar o elenco de “O Avarento”, porque ele une tudo isso, além de contar com um elenco maravilhoso.

JC – Fale um pouco sobre sua atuação na peça.

Arieta Corrêa – Interpreto a personagem Mariana, considerada a mocinha da peça, por quem o Avarento (Paulo Autran) e seu filho são apaixonados. O espetáculo se desenrola em cima dessa questão.

JC – Como é dividir os palcos com Paulo Autran?

Arieta Corrêa – Ele era um ícone para mim. O Paulo é tão humilde, tão humano! A primeira leitura do texto foi feita na casa dele e eu estava meio nervosa. Mas depois, em cena, foi maravilhoso, porque ele também dirige o ator e te deixa segura. Ele chega super-humilde e dá uns conselhos, umas orientações. Com ele, continuei me sentindo em casa, porque o Antunes fazia isso também, mas de maneira mais agressiva. Por isso, este momento está sendo muito importante para minha vida, com certeza, ficará marcado.

JC – Está nervosa para a estréia?

Arieta Corrêa – A pré-estréia é hoje (quarta-feira), mas estou tentando manter a calma. Sei que na hora vou ficar uma pilha. É sempre assim. Eu posso estar há oito anos em cartaz que a sensação é a mesma.

JC – Depois de seis anos, foi difícil largar o CPT?

Arieta Corrêa – Eu já estava com vontade de fazer algo novo e, quando fiquei sabendo que a peça tinha Paulo Autran, eu disse “Vamos lá!”. Eu me despedi do Antunes aos prantos, porque o tempo que fiquei lá foi como um casamento. O Antunes é terrível, mas aprendi a amá-lo. Tive medo de que minha saída estremecesse a relação entre a gente, porque quando o Luís Mello saiu, eles ficaram anos sem se falar. Mas comigo não, ele apenas disse “Pára de chorar! Vai e, quando você quiser voltar, volte”. Na verdade, o Antunes falou que estava me emprestando para o Paulo Autran.

JC – Qual a importância do CPT na sua carreira?

Arieta Corrêa – Foi lá que tive minha formação. Depois de ficar famosa com a Chiquita de “O Rei do Gado”, senti a necessidade de conhecer aquilo tudo, de me conhecer. Fiquei dois anos no Gerald Thomas e decidi sair, porque ele não entende nada de ator, ele trabalha com atores prontos. Então cheguei ao CPT crua, sem saber nada de profundo, não tinha controle, nem consciência de quando fazia algo bom ou ruim. Com o Antunes, eu tive uma técnica apurada e aprendi muito, tanto que fui protagonista dele com “Gregório”. Agora me sinto preparada para a guerra. Mas foi uma conquista árdua, nada foi fácil. Agora, se o sucesso vier, vou me dar bem com ele.

JC – Você pretende voltar à televisão?

Arieta Corrêa – Eu tenho vontade, sim. Televisão é uma coisa importante porque é outro veículo e acho que, se voltasse, faria melhor do que fiz. Em TV, eu só participei da novela “O Rei do Gado” e da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, onde interpretei a Bárbara. Na semana que vem, vou gravar um programa com Luiz Fernando Guimarães para o quadro “Minha Nada Mole Vida”. Eu nunca escondi do Antunes a minha vontade de fazer televisão. Não estou discutindo o conteúdo, mas as produções de TV do Brasil estão entre as melhores do mundo.

JC – E cinema, tem vontade de atuar em filmes?

Arieta Corrêa - Cinema é o que eu mais tenho vontade, inclusive eu gosto mais de cinema do que de teatro. Eu participei de um filme que deve estrear em janeiro, “Otávio e as Letras”, de Marcelo Massagão. Vai ser o meu primeiro longa. Muito da minha paixão pelo cinema é por causa do Antunes, porque no CPT há uma videoteca com mais de 7 mil títulos de filmes e, para me inspirar nos personagens, eu assistia muito os clássicos.

JC – Quando você descobriu que queria ser atriz?

Arieta Corrêa - Assistindo ao filme “E O Vento Levou” (risos). Passou na televisão e fiquei com vontade de fazer aquilo. Eu sempre encenei quando criança. Pedia para meus pais assistirem e eles me aplaudiam. Eles me deram muito apoio. Depois comecei a montar espetáculos no Colégio São José, onde estudava. Fazia todos os cursos de teatro e dança que havia em Bauru. Meus primeiro mestre foi o Paulo Neves. Atualmente não sei como ele está, mas acho que a Cultura deveria valorizar seu trabalho. Ninguém tem noção do quanto o Paulo Neves é culto e inteligente.

JC – De todos os seus personagens, qual foi o mais marcante?

Arieta Corrêa – Sem dúvida, o Gregório. Ele foi o personagem mais humano que fiz. O Gregório era uma espécie de “Idiota” de Dostoiévski. Ele defendia a bondade e o amor desinteressado. É como se hoje, nesse mundo louco, você parasse para questionar esses valores.

JC – E Bauru, você costuma visitar com freqüência?

Arieta Corrêa – É muito difícil ir para Bauru. Meus pais e minha avó ainda estão aí, mas não tenho muito tempo para viajar. Falar de Bauru é falar da minha história. Ainda tenho alguns amigos aí com que mantenho contato. Me divertia muito na cidade e guardo recordações boas e outras nem tanto. Perdi dois grandes amigos daí, o último há cerca de 15 dias, por isso estou meio chocada e não pretendo ir para Bauru tão cedo.

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